K-Pop na Coreia do Norte: Como a música sul-coreana se tornou um ato de rebeldia contra Kim Jong-un

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A música que desafia a ditadura: K-pop como símbolo de esperança e resistência na Coreia do Norte

Na Coreia do Norte, onde a imagem de Kim Jong-un domina todos os aspectos da vida, a cultura pop sul-coreana, incluindo o K-pop, representa um ato de ousadia e um vislumbre de liberdade. Desertores relatam como conseguiram acessar secretamente músicas e vídeos, mesmo diante de punições severas.

Apesar do controle rigoroso do regime, o K-pop encontrou seu caminho para dentro do “Reino Eremita”. De acordo com relatos de ex-residentes, a música sul-coreana se tornou um “balão de oxigênio” e uma “janela para o mundo exterior”, oferecendo esperança e um senso de normalidade em um ambiente de constante vigilância.

A disseminação do K-pop, com grupos como BTS e Blackpink, desafia a narrativa oficial que prega a superioridade do regime. O acesso a essa cultura, mesmo que clandestino, desperta a curiosidade sobre o mundo exterior e influencia hábitos, desde a forma de falar até a maneira de se vestir, conforme revelado por desertores à BBC.

O fascínio secreto pelo pop sul-coreano

Lee Yeon-su, que fugiu da Coreia do Norte em 2011, descreve como a música sul-coreana, muitas vezes ouvida sem saber quem eram os artistas, trazia uma sensação de liberdade. Para muitos, a descoberta do K-pop após deixar o país natal foi uma revelação, ajudando na adaptação a uma nova vida.

Outros desertores contam que, mesmo sob a repressão, o K-pop conseguiu se infiltrar. Eles ouviam secretamente, fascinados pelas letras e pela estética dos artistas, como os “ídolos de cabelo azul e maquiados”. Grupos como BTS, Blackpink, Girls’ Generation, Teen Top e 2PM se tornaram referências, com o nome do BTS, Bangtan Sonyeondan, até entrando para a linguagem cotidiana, segundo relatos.

Kang Gyu-ri, que deixou a Coreia do Norte em 2023, lembra-se de ouvir “Dynamite”, do BTS, mesmo com a dificuldade de captar sinais de TV do exterior. A música, com sua energia contagiante, contrastava com a propaganda estatal onipresente. O rap e as coreografias elaboradas chamavam a atenção, com jovens imitando os passos de dança de grupos como Teen Top.

A música como um ato de rebeldia e esperança

Ouvir música sul-coreana sempre foi um risco na Coreia do Norte. Estudantes flagrados consumindo esse tipo de conteúdo enfrentavam “sessões públicas de crítica”. Ainda assim, o acesso a essas mídias era visto como uma forma de se sentir “moderno” e de “saber se divertir”, apesar do medo crescente das punições.

Hannah Oh, que chegou à Coreia do Sul em 2019, narra como carregava dois cartões SD: um com música sul-coreana e outro vazio para entregar em caso de ser descoberta. Ela relata que, mesmo na prisão, uma música sul-coreana lhe deu forças para sobreviver, com a letra “Levante-se. Não deixe que o derrubem” servindo de inspiração.

A pesquisa de 2023 indicou que 98% dos desertores assistiram a dramas ou filmes sul-coreanos enquanto viviam na Coreia do Norte, e cerca de 80% afirmaram que isso despertou sua curiosidade pelo Sul. O regime de Kim Jong-un intensificou a repressão, com relatos de execuções públicas de adolescentes por distribuir conteúdo sul-coreano em 2022.

Superando o passado, abraçando o futuro com o K-pop

Para muitos desertores, o K-pop se tornou um elemento crucial na construção de uma nova identidade. Lee Yeon-su encontrou na comunidade de fãs do BTS, a ARMY, um senso de pertencimento, onde sua origem norte-coreana não era motivo de discriminação, mas sim mais uma característica, como ser fã do Brasil ou do Japão.

Álbuns como a trilogia “Love Yourself” do BTS, com mensagens de autoaceitação, e músicas como “Answer: Love Myself”, interpretada por Jimin, ressoaram profundamente em desertores como Yeon-su, oferecendo conforto e validação emocional. A música “Spring Day” trouxe memórias de casa para Hana Kang, que fugiu há 20 anos, mas também a fez sentir que sua terra natal pertencia a outro mundo.

O K-pop, especialmente o fenômeno BTS, oferece aos recém-chegados uma conexão com a cultura sul-coreana e um espelho para suas próprias lutas. A possibilidade de escolher o que ouvir e assistir, uma liberdade inimaginável na Coreia do Norte, marca a transição para uma vida onde a expressão individual é valorizada.

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