A surpreendente influência de um parafuso de rosca de 60 graus na ascensão dos Estados Unidos como potência mundial.
Às vezes, o que te torna poderoso é algo pequeno e comum. E os Estados Unidos provaram isso com um simples parafuso de rosca de 60 graus. Essa história começa em um mundo caótico em termos de padronização, onde cada país, e até mesmo cada estado americano, possuía suas próprias regras.
Essa falta de uniformidade criava ineficiências em todos os níveis, desde a sinalização de trânsito até a fabricação de bens essenciais. Foi nesse cenário que Herbert Hoover, então Secretário de Comércio, viu a oportunidade de implementar sistemas que impulsionariam a prosperidade através da eficiência.
A padronização de objetos comuns, como paralelepípedos e copos, foi apenas o começo. O grande desafio, e talvez o mais determinante, foi a padronização da rosca do parafuso. Uma tarefa que, literalmente, mantém o nosso mundo unido, e que se tornaria um pilar fundamental para a influência americana global. Conforme aponta o historiador Daniel Immerwahr, autor de “How to Hide an Empire”, a padronização do parafuso afetava todos, pois até os objetos que não o continham eram fabricados por máquinas que dele dependiam.
A Confusão das Rosca: 55 vs. 60 Graus
O cerne do problema residia na rosca do parafuso, um filete em espiral que precisa se encaixar com precisão. A diferença entre um parafuso de 55 graus e um de 60 graus, embora sutil a olho nu, era crucial para a compatibilidade e o funcionamento de máquinas e equipamentos. A dificuldade em chegar a um consenso sobre um padrão nacional era imensa, com fabricantes relutantes em adotar a norma de outros.
No entanto, em 1924, os Estados Unidos alcançaram um marco: o padrão nacional para parafusos com rosca de 60 graus foi estabelecido. Herbert Hoover celebrou o feito como a realização de um sonho, uma utopia concretizada. Contudo, o resto do mundo ainda operava sob diferentes padrões, uma anarquia que os EUA mal haviam conseguido domar internamente.
A Guerra Revela a Incompatibilidade
O desenvolvimento tecnológico acelerado no início do século 20 tornou a compatibilidade entre os objetos industriais cada vez mais importante. Os Estados Unidos estavam criando um mundo de produtos que “falavam 60 graus”, mas ao serem exportados, encontravam outros que “falavam 55 graus” ou outros padrões. Era como se falassem idiomas incompreensíveis, incapazes de trabalhar juntos, como ilustra Immerwahr.
A Segunda Guerra Mundial exacerbou dramaticamente esse problema. O presidente Franklin D. Roosevelt utilizou a famosa analogia da mangueira de jardim para explicar o apoio aos aliados, mas como Immerwahr ressalta, a metáfora falhava se a mangueira não encaixasse na torneira. Essa incompatibilidade de peças quase paralisou o esforço de guerra aliado. Um funcionário canadense chegou a afirmar que, no início do conflito, não havia um único fuzil ou bala compartilhável entre os Aliados.
O Custo da Incompatibilidade e a Cede Britânica
Os Estados Unidos se tornaram o principal fornecedor de armamentos e suprimentos para os Aliados. Enquanto a Europa sofria com bombardeios, a indústria americana operava a todo vapor. Contudo, a montagem, manutenção e conserto desses equipamentos a milhares de quilômetros de distância dependiam de parafusos que, muitas vezes, simplesmente não encaixavam. Ao longo da guerra, os EUA gastaram impressionantes US$ 600 milhões apenas enviando peças de reposição para solucionar problemas de incompatibilidade, valor que poderia ter construído cerca de mil bombardeiros B-29.
Diante desse cenário, o Reino Unido, que adotava um padrão de rosca de 55 graus, iniciou negociações com Washington entre 1943 e 1945. As atas dessas reuniões, analisadas por Immerwahr, revelam uma rendição gradual. Inicialmente dispostos a discutir, os britânicos passaram a considerar o reequipamento de suas fábricas e, por fim, cederam, adotando o padrão americano, mesmo que temporariamente para os fins da guerra. Essa foi uma clara admissão, segundo Immerwahr, de que no “reino dos objetos”, Washington ditaria as regras, marcando o alvorecer de um novo tipo de poder americano.
A Padronização Global e a Hegemonia Invisível
Com a adoção do mesmo ângulo de rosca pelos Estados Unidos e todo o Império Britânico, o resto do planeta seguiu o exemplo. O efeito manada dos padrões tornou mais vantajoso aderir ao que a maioria fazia. Em 1947, foi fundada a Organização Internacional de Padronização (ISO), a “Nações Unidas dos objetos”, que gradualmente ajustou o planeta ao tom ditado por Washington.
Um exemplo marcante é a placa de “pare”. O formato octogonal, criado nos EUA, tornou-se padrão internacional em 1953. Posteriormente, a introdução de uma tinta vermelha refletiva mais durável levou à mudança para o octógono vermelho, obrigando o mundo a se adaptar novamente. Hoje, 91% da população mundial adota a placa octogonal vermelha. Essa hegemonia se estende a outros campos, como a preferência americana pelo sistema de medidas em jardas, em contraste com o sistema métrico global. Os Estados Unidos encontraram uma forma de exercer influência sem governar diretamente, utilizando uma rede de manufatura, padrões técnicos e cadeias de suprimentos que tornaram o mundo dependente de suas tecnologias e normas. A força militar foi complementada por mecanismos muito mais invisíveis, onde os parafusos, uma vez apertados no padrão americano, consolidaram sua supremacia.
