A revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, pelos Estados Unidos gerou um impasse diplomático entre os dois países. O Departamento de Estado americano detalhou os motivos que levaram a essa medida drástica, apontando para a demora do Brasil em conceder o aval diplomático para o novo embaixador dos EUA em Brasília, Daniel Perez.
A decisão, classificada pelos EUA como uma resposta à falta de reciprocidade e a restrições impostas pelo Brasil a diplomatas americanos, não configura a expulsão da embaixadora, mas a impede de ter um visto válido para permanecer no país. A medida pode ser revertida caso o Brasil conceda o aval diplomático para o indicado por Washington.
O governo americano afirma que manteve contato com autoridades brasileiras por semanas para tentar agilizar a nomeação de Perez. No entanto, o anúncio da indicação por parte da Casa Branca, antes de uma consulta formal ao Brasil, causou desconforto em Brasília, pois a tradição diplomática dita que o aval do país anfitrião seja obtido antes de qualquer anúncio público.
Essa escalada de tensões diplomáticas remonta a eventos anteriores, incluindo a negativa de vistos pelo Itamaraty a dois diplomatas do Departamento de Estado, apontados pelo jornal The Washington Post como parte de uma estratégia para questionar o sistema eleitoral brasileiro, o que os EUA negam. A política de “America First”, que prioriza os interesses americanos em decisões de política externa, também foi citada como justificativa para a ação.
Impasse na Nomeação do Embaixador
O cerne da discórdia reside na nomeação de Daniel Perez para chefiar a embaixada dos EUA no Brasil. Segundo o Departamento de Estado, o Brasil sinalizou que a autorização para Perez assumir o cargo só ocorreria após as eleições presidenciais de outubro. Essa demora é vista por Washington como um obstáculo inaceitável para a relação bilateral.
A indicação de Perez, que é presidente da Câmara dos Deputados da Flórida e precisa de aprovação final do Senado americano, foi feita em junho. O processo de consulta e aprovação diplomática, que tradicionalmente precede o anúncio público de um nomeado, não foi seguido neste caso, gerando atritos entre os governos.
Reciprocidade e Medidas Diplomáticas
Os Estados Unidos classificaram a revogação do visto da embaixadora brasileira como um ato de reciprocidade. A decisão ocorre apenas 10 dias após o Itamaraty negar vistos a dois diplomatas americanos. Washington considera que o Brasil impôs restrições a seus diplomatas, e a medida contra a embaixadora Viotti é vista como uma resposta direta a essa ação.
O Departamento de Estado americano alertou que outras medidas diplomáticas estão em consideração caso o Brasil continue a adiar ou recusar o aval para Daniel Perez. Essa postura sinaliza uma escalada de ações hostis, segundo o Itamaraty, que repudiou a decisão americana e classificou as justificativas apresentadas como “falsas”.
“America First” e a Política Externa de Trump
A política externa do governo Donald Trump, pautada pelo lema “America First” (América em Primeiro Lugar), foi explicitamente mencionada como um fator determinante na decisão. O Departamento de Estado afirmou que o presidente Trump tem o direito de escolher seus representantes no exterior e que rejeita qualquer tentativa de interferência de outros países em seus processos internos.
Essa política tem como objetivo priorizar os interesses e cidadãos dos Estados Unidos em todas as decisões de política externa. A formação de uma equipe diplomática alinhada a essa visão é considerada essencial pelo governo americano para a condução de suas relações internacionais.
Histórico de Tensões Bilaterais
As relações entre Brasil e Estados Unidos têm sido marcadas por altos e baixos. No passado, tarifas sobre produtos brasileiros e a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas geraram atritos. A recente decisão sobre o visto da embaixadora se insere nesse contexto de tensões, que o Itamaraty descreve como parte de uma “escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas”.
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil, em nota, contestou as justificativas dos EUA, afirmando que não há regra no direito internacional que estipule um prazo para a concessão de aval diplomático. A análise do pedido de Daniel Perez está em andamento, e o Brasil critica o que considera uma postura incompatível com uma parceria bilateral baseada no respeito mútuo.
