Juíza venezuelana, ex-‘prisioneira pessoal de Chávez’, é libertada após quase uma década de perseguição e tortura

BRASIL

Juíza Marí­a Lourdes Afiuni finalmente livre após quase 10 anos de prisão e perseguição pelo regime de Hugo Chávez na Venezuela

A família da juíza venezuelana Marí­a Lourdes Afiuni anunciou, com grande alívio, o encerramento definitivo do processo judicial que a manteve presa por quase uma década sob o governo do ex-presidente Hugo Chávez. A decisão marca o fim de um longo e doloroso período, repleto de graves violações de direitos humanos e do devido processo legal, conforme comunicado divulgado pela família e sua advogada.

A magistrada, que se tornou um símbolo da erosão da independência judicial no país, sofreu perseguições que transcenderam a esfera pessoal. Ela alega ter sido torturada e abusada sexualmente durante o tempo em que esteve detida, maus-tratos que resultaram em sequelas para toda a vida. Sua libertação, embora tardia, representa um marco importante.

O caso de Afiuni, que chegou a ser descrito como o de uma “prisioneira pessoal de Chávez”, serve como um sombrio alerta sobre o uso do sistema judiciário como ferramenta de retaliação. A família agradeceu o apoio de pessoas e instituições que lutaram por sua liberdade, mas ressalta que o encerramento do caso não apaga o sofrimento suportado nem repara integralmente os danos causados.

O início da perseguição: a soltura de um banqueiro

Em dezembro de 2009, Marí­a Lourdes Afiuni foi detida logo após conceder liberdade provisória ao banqueiro Eligio Cedeño, que estava preso preventivamente há três anos. Na época, o então presidente Hugo Chávez exigiu publicamente uma condenação de até 30 anos para a juíza, chamando-a de “bandida” e acusando-a de armação.

Chávez chegou a declarar que “uma juíza que liberta um bandido é muito mais perigosa do que o próprio bandido”, pressionando o sistema judiciário para punir severamente Afiuni. A juíza, por sua vez, argumentou ter apenas aplicado a lei venezuelana e recomendações de órgãos internacionais, mas sua prisão pelos serviços de inteligência foi inevitável.

Anos de sofrimento e sequelas permanentes

Afiuni foi enviada para uma prisão onde conviveu com mulheres que ela mesma havia julgado e condenado. Durante seu tempo no Instituto Nacional de Orientaçã­o Feminina (INOF), relatos de sua defesa indicam tentativas de agressão com facas, abuso sexual e ameaças constantes. “Não havia uma semana que passasse sem que me ameaçassem”, Afiuni relatou anos depois.

Seu estado de saúde deteriorou-se drasticamente na prisão. Em fevereiro de 2011, foi submetida a uma histerectomia. Ao ser transferida para prisão domiciliar e posteriormente obter liberdade condicional, ela revelou ter sofrido tortura e estupro, que agravaram ou causaram problemas de saúde, incluindo cistos, lesões no seio e problemas na bexiga e reto, necessitando de cirurgia reconstrutiva.

Um símbolo da luta pela independência judicial

O caso de Marí­a Lourdes Afiuni ganhou repercussão internacional, com figuras como Noam Chomsky assinando cartas públicas pedindo sua libertação. Em dezembro de 2017, a própria juíza denunciou que o tempo de restrição de liberdade excedia a pena máxima para os crimes imputados a ela.

Seu irmão, Nelson Afiuni, em 2011, descreveu a situação como um “calvário por ordem expressa de Chávez”, destacando a “raiva e a maldade” do então presidente. Quinze anos após o início de sua provação, a história da juíza Afiuni é lembrada não apenas pela injustiça sofrida, mas pela convicção de que a defesa da independência judicial é fundamental para a liberdade e os direitos de todos os cidadãos venezuelanos.

Saúde agravada e a luta pela liberdade

Recentemente, a saúde de Afiuni voltou a se agravar, com sintomas como tontura, vômitos e hipertensão, levando-a a ser internada. Exames médicos revelaram três lesões tumorais que exigem atenção imediata. A família reiterou a urgência de sua libertação devido ao seu estado de saúde debilitado.

O encerramento definitivo do processo judicial, anunciado em 7 de agosto, encerra formalmente um caso que, segundo a família, “jamais deveria ter existido”. A luta de Marí­a Lourdes Afiuni se tornou um emblemático testemunho das consequências da perseguição política e da fragilidade da justiça em regimes autoritários.

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