Ceuta, cidade espanhola localizada no Norte da África, deu início ao sepultamento de imigrantes não identificados que morreram em meio à crise migratória mais severa da Espanha. A ação gerou controvérsia e um apelo de organizações de direitos humanos para que os enterros sejam suspensos até que todos os esforços sejam feitos para identificar os corpos e repatriá-los.
No último sepultamento realizado na sexta-feira (21), 18 homens foram enterrados em um cemitério muçulmano. Os corpos foram dispostos voltados para Meca, seguindo a tradição islâmica, e as sepulturas receberam apenas números, visando futura identificação caso familiares reclamem os restos mortais.
A situação é resultado da mais mortal crise de fronteira da Espanha, que viu mais de 72 mil pessoas chegarem a Ceuta no final de julho, impulsionadas por desinformação, pobreza e falta de oportunidades. Desses, mais de 90 perderam a vida, muitos por afogamento ou tumulto durante a tentativa de cruzar a barreira fronteiriça com Marrocos.
ONGs pedem suspensão e dignidade para os mortos
A Associação Marroquina de Direitos Humanos solicitou a suspensão dos enterros em Ceuta. Em comunicado, a entidade pediu ao Ministério das Relações Exteriores do Marrocos que garanta o retorno dos corpos às famílias, permitindo que sejam enterrados com dignidade. A ONG classificou a iniciativa como uma “nova tragédia humana”, somando-se ao “desastre do deslocamento forçado e das pessoas desaparecidas”.
Governo local aponta entraves na repatriação
Um porta-voz do governo local de Ceuta afirmou que a documentação para a repatriação dos corpos já está concluída. No entanto, o governo marroquino ainda não a aceitou. O Ministério das Relações Exteriores do Marrocos não respondeu às perguntas da agência de notícias Associated Press sobre os enterros ou sobre as alegações de bloqueio na repatriação de corpos identificados.
Milhares de migrantes ainda em Ceuta
Apesar de a maioria dos migrantes que chegaram a Ceuta no final de julho ter retornado ao Marrocos, autoridades locais estimam que ainda haja entre 5 mil e 10 mil pessoas na cidade, incluindo mulheres e crianças. As autoridades espanholas e marroquinas atribuem a imigração em massa a rumores em redes sociais e redes de tráfico, enquanto os migrantes citam desemprego e baixos salários como motivações.
Tradição islâmica respeitada nos sepultamentos
Said Mohammed, gerente interino do cemitério, confirmou que todos os enterrados na sexta-feira eram homens. Os túmulos numerados foram preparados conforme a tradição islâmica, com os corpos posicionados voltados para Meca. A esperança é que, futuramente, os familiares possam reivindicar os corpos e realizar os ritos fúnebres adequados.
