Joesley Batista se reuniu com Donald Trump para discutir tarifas de carne brasileira
O empresário brasileiro Joesley Batista, um dos controladores da JBS, a maior processadora de proteína animal do mundo, teria se reunido com o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em agosto de 2018. O objetivo, segundo o jornal The Wall Street Journal, era articular a redução das tarifas de importação sobre a carne bovina do Brasil.
A iniciativa de Joesley Batista teria como pano de fundo a alta dos preços da carne nos Estados Unidos, um desafio para a administração Trump na época. A JBS, com forte atuação no mercado americano, seria diretamente beneficiada por uma eventual diminuição dessas tarifas, que eram de 26%.
A reportagem do The Wall Street Journal, baseada em fontes familiarizadas com o assunto, indica que a reunião ocorreu no Salão Oval da Casa Branca. Na ocasião, discutiu-se como um aumento no fornecimento de carne bovina brasileira poderia ajudar a conter os preços, caso Trump optasse por eliminar a tarifa de importação.
Plano de Trump e conversa com Lula
No dia seguinte à suposta reunião, Donald Trump anunciou em suas redes sociais um plano para permitir temporariamente a entrada de mais carne bovina estrangeira nos EUA. O objetivo declarado era oferecer produtos importados com um desconto de 25% em relação aos preços de mercado, visando aliviar o bolso do consumidor americano.
Paralelamente, o governo brasileiro informou em 21 de agosto que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump tiveram uma conversa telefônica de 80 minutos. Na pauta, foram discutidos temas como tarifas, combate ao crime organizado e visões sobre conflitos globais.
Impacto da alta da carne e resistência no setor
A alta dos preços da carne bovina representava um obstáculo político para o governo Trump, que buscava reduzir o custo de vida nos EUA. A decisão de reduzir temporariamente as tarifas, contudo, gerou forte insatisfação entre os pecuaristas americanos e críticas de parlamentares republicanos e de grupos do setor.
A National Cattlemen’s Beef Association, principal entidade de pecuaristas dos EUA, manifestou preocupação, argumentando que a intervenção governamental prejudicaria os produtores e a estabilidade da indústria de carne bovina a longo prazo. Republicanos em áreas rurais, disputando eleições acirradas, também demonstraram resistência à medida.
Relação da JBS com o governo Trump e investigações
O The Wall Street Journal também destacou o papel da JBS na formação de posições do governo Trump. A Pilgrim’s Pride, outra empresa controlada pela JBS e segunda maior processadora de frango dos EUA, contribuiu com US$ 5 milhões para a posse de Trump, tornando-se uma das maiores doadoras.
Essa aproximação ocorre em um momento em que o Departamento de Justiça dos EUA investiga as quatro maiores processadoras de carne do país, incluindo a JBS, por possíveis práticas anticompetitivas. As empresas negam irregularidades, enquanto enfrentam dificuldades financeiras devido ao aumento do custo do gado para processamento.
Expansão global da JBS
Para a JBS, a possibilidade de importar mais produtos brasileiros para os EUA representaria uma oportunidade de expandir sua participação no mercado americano. O Brasil, maior produtor de carne bovina do mundo, enviou cerca de US$ 1,5 bilhão em carne bovina para os EUA nos primeiros seis meses do ano, um aumento de 10% em relação ao ano anterior, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA.
A JBS, que começou como um frigorífico familiar no Brasil, expandiu-se globalmente e emprega cerca de 280 mil pessoas em mais de 20 países. A empresa listou suas ações na Bolsa de Nova York em 2015, buscando consolidar sua imagem como uma gigante americana do setor de carnes e atrair um maior número de investidores.
Além da JBS, os irmãos Joesley e Wesley Batista controlam a J&F, holding com investimentos em diversos setores, como celulose, mineração, energia e serviços financeiros. Recentemente, adquiriram 100% da Avibras, empresa brasileira do setor de defesa que passava por recuperação judicial.
