Anistia Internacional Alerta: Rússia Usa Vítimas de Tráfico Humano em Combate na Ucrânia
A Rússia estaria enganando cidadãos estrangeiros, incluindo brasileiros, para recrutá-los para a guerra na Ucrânia. A Anistia Internacional divulgou um relatório chocante nesta quinta-feira (10), detalhando como pessoas de países como Brasil, Colômbia e Cuba são atraídas por promessas de emprego, apenas para serem forçadas a assinar contratos militares.
Segundo a organização, muitos desses indivíduos, que se tornam verdadeiras “buchas de canhão”, são coagidos a lutar em condições extremamente perigosas. O sofrimento causado por essa prática afeta comunidades vulneráveis em todo o mundo.
As denúncias se baseiam em depoimentos de prisioneiros de guerra e em investigações que apontam para um padrão de recrutamento enganoso. A AFP já havia reportado casos semelhantes envolvendo quenianos atraídos por falsas ofertas de trabalho civil. Conforme informação divulgada pela Anistia Internacional, as autoridades russas ainda não se pronunciaram sobre as acusações.
Métodos Enganosos de Recrutamento na Rússia
A Anistia Internacional detalha que a Rússia utiliza diversos métodos para atrair estrangeiros, principalmente homens com menos de 40 anos e oriundos de países mais pobres. A principal isca são as “promessas de emprego”, muitas vezes veiculadas por meio de anúncios online para vagas que nem sequer existem. Esse esquema configura um claro caso de tráfico de pessoas, caracterizado pela fraude, engano e abuso de poder.
Uma vez na Rússia, os estrangeiros enfrentam a coerção. Seus passaportes são confiscados, são obrigados a assinar documentos que não compreendem e submetidos a treinamentos básicos antes de serem enviados para a linha de frente. Um exemplo citado é o de um caminhoneiro sul-africano que foi levado a Moscou com a promessa de trabalho e teve todos os seus pertences tomados ao chegar.
Vulneráveis e Coagidos: O Perfil das Vítimas
Além das falsas ofertas de emprego, a Rússia também mira estrangeiros que vivem de forma irregular no país. A eles, são oferecidas autorizações de residência ou até mesmo a cidadania russa em troca do alistamento militar. Cidadãos do Sri Lanka e da África do Sul também estão entre as vítimas relatadas pela Anistia Internacional.
Relatos de prisioneiros estrangeiros que lutaram pela Rússia confirmam as táticas de engano. Eles relatam ter assinado contratos sem entender seu conteúdo e recebido treinamentos insuficientes, além de enfrentarem barreiras de comunicação com seus superiores devido ao idioma.
A Busca por Responsabilização e a Posição da Ucrânia
A secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, enfatizou que pessoas que trabalham para o Estado russo e sabem do recrutamento de vítimas de tráfico são cúmplices e devem prestar contas. A organização pede que a Ucrânia e os governos dos países cujos cidadãos foram alvos apresentem provas para que os responsáveis sejam processados.
Embora reconheça que a Ucrânia possa não priorizar essas investigações, Callamard sugere que Kiev apure os casos. Isso, segundo ela, demonstraria os valores e a abordagem distintos da Ucrânia em relação à Rússia, reforçando o contraste entre os dois países no conflito.
Estatísticas e o Contexto do Conflito
Desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022, tanto Moscou quanto Kiev têm recrutado combatentes estrangeiros. Em abril, a Ucrânia estimou que mais de 28 mil estrangeiros de 136 países combatiam nas Forças Armadas russas, sem contar cerca de 14 mil soldados norte-coreanos. A Anistia Internacional, por sua vez, não conseguiu entrevistar combatentes estrangeiros detidos na Rússia devido à classificação da organização como “agente estrangeiro” por Moscou.
Nem a Rússia nem a Ucrânia divulgaram o número total de estrangeiros em suas fileiras. A Anistia Internacional define tráfico de pessoas como o recrutamento, transporte ou alojamento de indivíduos por meio de fraude, engano ou abuso de poder para fins de exploração, um cenário que se desenha claramente nas denúncias contra a Rússia.
