Argentina em crise: o alto custo do ajuste fiscal de Javier Milei e o avanço do endividamento
O cenário econômico argentino, sob o comando do presidente Javier Milei, tem gerado controvérsias e debates acalorados. Embora o governo celebre a queda da inflação e o superávit fiscal, a realidade nas ruas revela um lado sombrio: o aumento expressivo do endividamento das famílias e o fechamento de empresas, questionando a sustentabilidade do chamado ‘milagre econômico’.
Fernando Pérez, um argentino de 47 anos, é um exemplo da dura realidade enfrentada por muitos. Com dívidas que chegam a 2 milhões de pesos (cerca de R$ 7.300), ele precisou cancelar seu plano de saúde e cortar despesas essenciais, chegando a ter que escolher entre medicamentos e comida. Sua história reflete a de quase 6 milhões de argentinos inadimplentes, um recorde histórico que motivou a primeira marcha de sindicatos em defesa dos endividados.
A escalada da inadimplência, somada ao fechamento de fábricas, coloca em xeque o programa econômico de Milei, que prometia rigor fiscal e controle inflacionário. A imprensa internacional, como o Financial Times e o New York Times, tem acompanhado de perto os desdobramentos, contrastando com o otimismo de 2025, quando a queda da inflação e o avanço do PIB eram vistos como sinais de recuperação, mesmo com um custo social previsto.
As promessas e os resultados do plano Milei
Javier Milei assumiu a presidência com um plano ambicioso focado em déficit zero, corte de gastos, redução de subsídios, controle da emissão monetária e abertura econômica. O objetivo era sanar desequilíbrios históricos e combater uma inflação que superava os 25% mensais. Entre as vitórias inegáveis do governo está a desaceleração da inflação, que caiu para taxas mensais entre 1,9% e 3,4% nos primeiros oito meses de 2026.
As contas públicas também apresentaram melhora significativa. No primeiro ano de gestão, a Argentina registrou um superávit fiscal primário de 1,8% do PIB, o primeiro desde 2008. Esse ajuste foi alcançado com cortes drásticos em subsídios a serviços públicos, obras e gastos sociais, além de uma redução de 76% nas transferências para governos provinciais. A melhora fiscal permitiu diminuir a necessidade de emissão monetária, fator crucial para a queda da inflação.
Embora o PIB tenha encolhido 1,3% no primeiro ano de Milei, a economia voltou a crescer em 2025, com alta de 4,4%, e a projeção do FMI para o ano corrente é de 3,5%. Setores voltados para exportação, como petróleo e mineração, foram beneficiados, mas a indústria nacional e o comércio interno enfrentam dificuldades.
Fábricas fecham as portas e o desemprego avança
Desde a posse de Milei, mais de 30 mil empresas fecharam na Argentina, segundo o centro de pesquisas Fundar. Empresários e economistas apontam a queda do consumo interno, a perda do poder de compra das famílias, altos custos operacionais e a maior concorrência externa como causas principais. O governo, por sua vez, argumenta que se trata de uma reorganização necessária da economia.
Grandes nomes como a fabricante de pneus Fate, o grupo Dass (calçados) e a Whirlpool (eletrodomésticos) encerraram suas operações. O fechamento do grupo têxtil Will Der S.A., que produzia para marcas esportivas renomadas e demitiu 120 trabalhadores, gerou comoção nacional. Armando Anasal, um dos sócios, lamentou às lágrimas: “Acreditem em mim, a política nos arruinou”.
O fechamento de empresas impactou diretamente o mercado de trabalho. A taxa de desemprego subiu de 5,7% no final de 2023 para 7,8% no primeiro trimestre de 2026. Mais de 241 mil argentinos perderam seus empregos formais no setor privado entre novembro de 2023 e maio de 2026, com a indústria manufatureira concentrando a maior parte dessa queda.
Custo de vida dispara e salários perdem valor
O fim dos subsídios federais a serviços básicos, uma das principais ferramentas de ajuste de Milei, resultou em um aumento vertiginoso nos preços. Um indicador de tarifas de luz, gás, água e transporte público registrou alta de 966% entre dezembro de 2023 e julho de 2026, enquanto a inflação acumulada no mesmo período foi de 241%. O custo de vida na Argentina tornou-se insustentável para muitas famílias.
Apesar da desaceleração da inflação, os salários não conseguiram acompanhar a perda de poder de compra. O ajuste fiscal penalizou especialmente servidores públicos, aposentados e famílias de baixa renda, que passaram a destinar uma fatia maior de seus ganhos para despesas básicas. Dados da Universidade Nacional de Buenos Aires (UBA) indicam que o salário mínimo perdeu 39,3% de seu poder real de compra entre novembro de 2023 e abril de 2026.
Endividamento em massa: a busca por crédito para sobreviver
Com mais desempregados e a renda encolhendo, a inadimplência disparou. Enquanto os bancos ampliaram a oferta de crédito após um período de restrição, a inflação mais baixa não permitiu a desvalorização das dívidas como antes. Medidas de austeridade levaram muitos a recorrer a empréstimos para manter o consumo, mesmo com juros reais em dois ou três dígitos.
A economista Mariana Gonzáles, do CIFRA, destaca o crescimento de 16% em financiamentos individuais fora do sistema bancário, com juros que podem chegar a 700% ao ano. O economista brasileiro Fabio Giambiagi aponta que Milei trata o problema do endividamento como uma questão individual, ignorando projetos de lei para auxiliar os endividados e demonstrando, segundo ele, “falta de empatia raramente vista”.
O futuro político de Milei em 2027 dependerá da capacidade de seu governo em demonstrar que os avanços nas contas públicas compensaram os custos sociais do ajuste fiscal. A frustração das expectativas econômicas da população pode ser um fator decisivo nas próximas eleições.
