Kratom: o que é, para que serve e os perigos da erva que causa alarme nos EUA e preocupa o Brasil
O kratom, uma erva originária do Sudeste Asiático, tem ganhado notoriedade nos Estados Unidos e acende um alerta no Brasil. Apesar de ser facilmente encontrada em lojas de conveniência e postos de gasolina, a substância não possui regulamentação nos EUA e é legal em alguns estados, o que levanta preocupações sobre sua segurança e efeitos.
A erva, consumida tradicionalmente em forma de chá, entrou no mercado americano por volta de 2016, principalmente em formas concentradas como comprimidos, pó ou líquidos. A falta de fiscalização permite que produtos com kratom sejam vendidos sem garantia de pureza ou dosagem, aumentando os riscos para os consumidores.
Recentemente, a descoberta de embalagens de kratom em posse de dois estudantes que morreram na Universidade do Mississippi, embora as mortes não tenham sido diretamente atribuídas à substância, intensificou os alertas das autoridades americanas. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já recomendou a inclusão do kratom na lista de plantas proibidas, evidenciando a preocupação global com seus efeitos.
Kratom: Alívio para dores e vício, mas com riscos desconhecidos
Para muitos, o kratom representa um alívio. Jeffrey Deaver, um lenhador aposentado de 58 anos, relata que utiliza a erva há quatro anos para controlar dores crônicas severas no quadril e joelho, quando a medicina tradicional não ofereceu solução. Ele descreve a experiência como um “milagre”, que permitiu que ele voltasse a dormir e a funcionar normalmente.
O kratom é frequentemente comercializado como um suplemento herbal natural para controle de dor, ansiedade e depressão. Em doses baixas, seus efeitos são estimulantes, similares aos da cafeína, gerando uma sensação de euforia. Já em doses mais altas, seus efeitos se assemelham aos de opioides, proporcionando analgesia e bem-estar.
Devido a essas propriedades, o kratom também tem sido utilizado na tentativa de combater o vício em opioides, como o fentanil. Os compostos da planta, como a 7-hidroximitraginina, ativam hormônios como a dopamina, influenciando o humor e a percepção da dor.
Perigos ocultos: efeitos colaterais e dependência do kratom
No entanto, o uso do kratom não está isento de perigos. Especialistas alertam que, em doses elevadas, a erva pode causar euforia intensa e uma sensação de bem-estar geral, mas também pode levar a efeitos colaterais adversos graves. Estes incluem depressão do sistema nervoso central, que pode resultar em colapso cardiovascular e parada respiratória.
Sintomas de abstinência e dependência também são riscos significativos associados ao kratom. Jana Wu, diretora de integração clínica de um centro de tratamento de dependência, observa que o uso pode afetar relacionamentos, levar à perda de empregos e gerar gastos mensais elevados. A alta tolerância à erva faz com que usuários precisem aumentar a dose ao longo do tempo, com relatos de pessoas consumindo até 20 comprimidos por dia.
Falta de regulamentação: um “tiro no escuro”
O principal ponto de preocupação para as autoridades é a **falta de regulamentação** do kratom nos Estados Unidos. Shane Speights, reitor da Faculdade de Medicina Osteopática do Instituto de Tecnologia de Nova York, enfatiza que “não há como saber exatamente o que você está comprando”. A ausência de fiscalização permite que produtos sejam comercializados como suplementos sem que seu conteúdo seja verificado, tornando o consumo um “tiro no escuro” em termos de segurança.
A Food and Drug Administration (FDA) dos EUA não regula o kratom, e a substância é proibida em 11 estados americanos. Em 2016, a Drug Enforcement Administration (DEA) tentou classificar o kratom como substância controlada de Classe 1, mas a iniciativa foi barrada após protestos públicos. A situação deixa a cargo dos estados a responsabilidade de regulamentar ou proibir a erva.
Kratom no Brasil: Anvisa recomenda proibição
No Brasil, o kratom também não é regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em 2023, uma nota técnica recomendou a inclusão da planta na lista de substâncias proibidas. A nota destaca os efeitos bifásicos do kratom: em baixas doses, estimulantes como a cocaína, e em doses altas, semelhantes aos opioides, com riscos de abstinência.
A facilidade de acesso e a falta de controle sobre a pureza e a dosagem do kratom representam um desafio crescente para as autoridades de saúde em todo o mundo, incluindo o Brasil, que busca formas de proteger a população dos riscos associados a essa erva popular e controversa.
