Mancuso e o esquema de diplomas falsos de técnico: Astros do futebol brasileiro envolvidos em polêmica na Argentina

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Mancuso e o esquema de diplomas falsos de técnico: Astros do futebol brasileiro envolvidos em polêmica na Argentina

Uma investigação revelou um esquema que prometia diplomas falsos de técnico de futebol para ex-jogadores brasileiros. Segundo áudios obtidos com exclusividade pela reportagem, o ex-jogador Alejandro Mancuso se apresentava como intermediário para facilitar a obtenção de licenças da Associação de Treinadores de Futebol Argentino (ATFA).

Mancuso alegava ter acordos com a diretoria da ATFA para oferecer um “jeitinho argentino” a “feras”, “cracks” e “monstros” do futebol, dispensando a necessidade de cursos tradicionais. A proposta envolvia a emissão de diplomas com datas retroativas e assinaturas de dirigentes que já não faziam parte da entidade.

Diversos ex-jogadores de renome, com passagens por grandes clubes brasileiros como Flamengo e Palmeiras, foram citados na investigação. Alguns confirmaram ter negociado com Mancuso, enquanto outros negaram conhecimento sobre a irregularidade dos documentos. A ATFA nega qualquer envolvimento no esquema e afirma que toda a documentação apresentada por Mancuso é falsa. Conforme informações divulgadas pela reportagem, a Justiça Federal argentina chegou a investigar o caso em 2025, mas arquivou o processo por inexistência de crime.

O ‘Jeitinho Argentino’ para Licenças de Treinador

A investigação teve início em maio de 2024, quando um ex-jogador procurou a reportagem após receber uma proposta de Mancuso por aplicativo de mensagens. O argentino oferecia um “atalho” para a formação de treinadores, justificando que grandes atletas não deveriam perder tempo estudando o que já haviam aprendido em uma vida dedicada ao futebol.

Mancuso afirmava que o procedimento estava acertado com Salvador Pasini, dirigente máximo da ATFA, que assinaria os diplomas. Essa informação era repetida para todos os jogadores abordados. Em um dos áudios, Mancuso declara: “Fechei com o nosso presidente da federação para que todas essas feras que jogaram futebol tenham um jeito para não fazer esse curso online. Pronto e acabou”.

A formação real da ATFA segue um sistema progressivo de licenças, que leva três anos para alcançar o nível PRO. Embora existam atalhos, como cursar matérias simultaneamente, há controle sobre a realização das trilhas de ensino. O procedimento de Mancuso era apresentado como uma facilidade exclusiva para quem construiu carreira profissional no futebol, tratando as exigências acadêmicas como burocracia desnecessária.

Ex-jogadores e suas versões sobre os diplomas

Entre os nomes citados estão Dejan Petkovic, Felipe Melo, Paulinho, Alex de Souza, Luiz Gustavo, Roberto Carlos, Diego Lugano, Roberto Assis e Thiago Silva. Alguns relataram ter comprado as licenças acreditando na promessa de facilidade, enquanto outros foram mais céticos.

Felipe Melo, por exemplo, conseguiu o reembolso após confrontar Mancuso. Ele admitiu ter exibido a associação com a ATFA em suas redes sociais, mas desconfiou da situação ao perceber a falta de aulas presenciais. “Eu imaginei que as licenças poderiam ser falsas quando eu comecei a cobrar pela aula presencial e o Mancuso nunca marcava. Pensei: ‘Isso aqui tá errado'”, afirmou.

Alex de Souza, ídolo do Palmeiras, comprou a licença argentina após concluir todos os cursos da CBF Academy, mas nunca tentou homologar o documento. “Era para comprar facilidade, mas eu nunca usei”, disse. Luiz Gustavo, por meio de sua assessoria, informou que acreditou estar contratando uma homologação de carreira, não um curso, e desconfiou ao receber históricos com avaliações que nunca realizou.

ATFA nega envolvimento e aponta falsidade da documentação

Em comunicado oficial, a ATFA negou veementemente qualquer ligação com Alejandro Mancuso e classificou toda a documentação enviada por ele como falsa. “A ATFA não reconhece qualquer gestão que o Sr. Mancuso tenha realizado ou alegado fazer em nome da entidade. O referido senhor não integra a Diretoria, não ocupa cargo de autoridade na ATFA, não mantém qualquer vínculo contratual com a instituição e não possui autorização para agir em seu nome ou representá-la”, declarou a entidade.

A ATFA apontou inconsistências nos documentos recebidos por Mancuso, como o uso de cópias autenticadas em vez de originais e a ausência de QR codes válidos que levariam a uma página de verificação na entidade. Além disso, algumas licenças apresentavam datas retroativas e assinaturas de pessoas que já não faziam parte da ATFA há anos, como Victorio Cocco, licenciado em 2020.

A entidade também mencionou que os fatos denunciados foram investigados pela Justiça Federal Criminal e Correcional da Argentina em 2025. Na ocasião, o Ministério Público Fiscal solicitou o arquivamento do caso, decisão que foi acatada pelo juízo por “inexistência de crime”. A ATFA ressaltou que a questão foi resolvida judicialmente e se reveste de coisa julgada.

Mancuso nega as acusações e atribui responsabilidade aos jogadores

Procurado, Alejandro Mancuso negou ter vendido licenças de treinador. Ele afirmou que muitos brasileiros o procuram para saber como obter as licenças e que ele apenas passa o contato da federação para que liguem diretamente. “Eu não estou na federação, eu não sou parte da federação”, declarou.

Confrontado sobre os áudios em que oferecia diplomas por US$ 20 mil, Mancuso negou a existência dessas ofertas. “Não, isso não existe”, disse. Quando questionado se os jogadores estariam mentindo, ele respondeu: “Aí você tem que perguntar para eles. Eu só facilito, se eles me perguntam do jeito que tem que fazer, só isso”.

Mancuso também negou ter recebido depósitos de jogadores, afirmando que os pagamentos vão direto para a federação. A reportagem apurou que um jogador, que pediu para não ser identificado, admitiu a compra e relatou que o esquema virou “papo de vestiário”, com inúmeros jogadores envolvidos. Ele confessou que a facilidade parecia “boa demais para ser verdade”, mas não desconfiou da possibilidade de ser um documento falso.

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