Médicos da Oncoclínicas Alertam para Risco de Insolvência e Exigem Auditoria Urgente em Gastos e Contratos da Companhia
Um grupo de médicos acionistas da Oncoclínicas entrou em conflito com a gestão da empresa, exigindo uma auditoria completa para investigar supostos gastos exorbitantes e a validade de contratos firmados. A insatisfação é tamanha que os profissionais temem pela própria sobrevivência da companhia, que se tornou uma verdadeira “corporation” com muitos donos e sem um controlador definido.
A principal demanda é o escrutínio de todos os números, atos, contratos e deliberações da gestão anterior, liderada pelo fundador Bruno Ferrari, que deixou o comando nacional em março. Os médicos querem entender o destino de investimentos e como a empresa chegou a um ponto de fragilidade financeira, impactando a compra de insumos essenciais.
Entre os pontos de maior preocupação estão despesas milionárias com viagens do ex-CEO, a mudança da sede administrativa para um prédio de luxo e contratos de construção e locação que geraram multas bilionárias. A situação é agravada pela disputa com a gestora americana Centaurus, que pode forçar uma oferta pública de aquisição de ações avaliada em até R$ 11 bilhões. Conforme informação divulgada pelo UOL, a notificação extrajudicial foi enviada em agosto.
Gastos Milionários e Contratos Questionados
Os médicos investigam um montante de R$ 57 milhões em despesas de viagens de Bruno Ferrari, realizadas entre 2023 e 2025, quando ele ainda era CEO. Esses gastos incluem uso de cartão corporativo, hospedagens em hotéis de luxo e viagens em jatinhos particulares. A defesa de Ferrari aponta que as viagens foram aprovadas pelo conselho e destinadas a reuniões com investidores e parceiros internacionais.
Outro ponto de questionamento é a decisão de mudar a sede administrativa da Oncoclínicas para um prédio nos Jardins, em São Paulo, uma operação que, segundo os médicos, onerou significativamente os cofres da empresa. A busca por transparência também se estende a contratos de construção e locação (built to suit) firmados com uma companhia ligada a Lucas Kallas, parceiro de Daniel Vorcaro. O rompimento de dois desses contratos gerou multas de R$ 210 milhões em 2025 e outros R$ 75 milhões neste ano, pagas pela Oncoclínicas.
O Medo de Uma Empresa “Mantida Sob Aparelhos”
O grupo de médicos minoritários, que prefere manter o sigilo por temer retaliações, sustenta possuir ações suficientes para solicitar acesso aos livros contábeis da empresa, conforme a Lei das S.A.s. Eles expressam o temor de que a Oncoclínicas esteja sendo “mantida sob aparelhos” pelos controladores, sem que soluções efetivas para resgatar a operação sejam tomadas.
A preocupação é que o foco de parte do acionista esteja na potencial venda para a Centaurus, em vez da recuperação e sustentabilidade da empresa. A Oncoclínicas, por sua vez, afirma estar em processo de revisão de sua estrutura de custos e processos para aumentar a eficiência e fortalecer a geração de caixa, além de reforçar mecanismos de governança e controles internos.
A Complexa Estrutura Societária da Oncoclínicas
A Oncoclínicas opera como uma corporation, com capital pulverizado, o que significa que não possui um único controlador. Seu maior acionista é a gestora Latache, com 14,59% das ações. A empresa foi fundada em 2010 por Bruno Ferrari, Marcelo Guimarães e Ernane Bronzatti, e posteriormente teve o controle adquirido pelo fundo Goldman Sachs. A dinâmica societária, com a entrada e saída de investidores e fundadores, contribuiu para a atual complexidade.
A estrutura, que varia entre médicos sócios, funcionários e detentores de participação acionária, gerou divergências históricas sobre a concentração de poder e a gestão próxima da operação. A situação atual reflete a necessidade de uma gestão mais transparente e focada na sustentabilidade da Oncoclínicas, garantindo o acesso ao tratamento oncológico de qualidade.
Posicionamento da Oncoclínicas
Em nota, a Oncoclínicas declarou que está implementando uma revisão estratégica de custos e processos com o objetivo de aumentar a eficiência e fortalecer a geração de caixa. A empresa também enfatizou o reforço dos mecanismos de governança e controles internos, buscando melhorar a gestão do capital de giro e a previsibilidade do fluxo de caixa.
O objetivo, segundo a companhia, é assegurar uma Oncoclínicas mais eficiente e preparada para continuar ampliando o acesso ao tratamento oncológico de qualidade no país. A empresa optou por não comentar especificamente os atos da gestão passada, como os gastos com viagens, focando nas ações atuais e futuras.
