Bilionário Daniel Vorcaro: Influência Oculta em 8 Veículos de Comunicação Choca o Brasil com Pedidos e Intervenções em Reportagens

GERAL

Massiva Operação de Influência: Banqueiro Daniel Vorcaro Tenta Controlar Narrativas em Múltiplos Veículos de Comunicação

A Polícia Federal e reportagens investigativas revelaram um esquema sem precedentes de influência do banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, sobre pelo menos oito veículos e grupos de comunicação no Brasil. Mensagens obtidas pela PF detalham pedidos de alterações, retiradas de reportagens, negociações de participação societária e contratos publicitários, levantando sérias questões sobre a independência editorial.

A investigação, com destaque para matérias do UOL, Jovem Pan e Intercept Brasil, aponta para diferentes graus de interferência, desde sutis sugestões até acordos financeiros e empresariais explícitos. A extensão dessa influência abala a confiança pública no jornalismo, especialmente ao envolver nomes conhecidos do cenário midiático nacional.

Os detalhes emergentes sugerem uma estratégia coordenada para moldar a opinião pública e proteger a imagem do banqueiro e de suas empresas. A seguir, detalhamos os casos identificados e os posicionamentos dos envolvidos, conforme apurado pela imprensa.

Metrôles: 14 Reportagens Sob Avaliação e Contrato de R$ 20 Milhões

O portal Metrôles submeteu nada menos que 14 reportagens à avaliação prévia de Daniel Vorcaro antes de sua publicação. Dessas, 11 foram modificadas após solicitações diretas do banqueiro, e duas foram publicadas a pedido dele. A relação se intensificou em 2024, coincidindo com um contrato publicitário de R$ 20 milhões firmado entre o Banco Master e o portal.

Registros indicam que Vorcaro pediu a alteração de matérias sobre a tentativa de compra do Master pelo BRB, modificações em textos sobre membros do Banco Central e a cobertura de críticos à operação. Em uma ocasião, ele solicitou a diminuição temporária da cobertura sobre Ricardo Cappelli, que criticava a aquisição do Master pelo BRB, com a CEO do grupo, Lilian Tahan, respondendo que cuidaria do assunto.

Em sua defesa, Lilian Tahan afirmou ao UOL que consultar fontes é uma prática comum com representantes de diversos setores. Ela negou que os contratos publicitários influenciassem a linha editorial, citando reportagens críticas publicadas pelo próprio portal.

Brazil Journal: Participação Societária e Pedidos de Alteração em Matérias

Geraldo Samor, fundador do Brazil Journal, consultava Daniel Vorcaro sobre reportagens relacionadas ao Banco Master antes da publicação. As mensagens demonstram que o banqueiro solicitava alterações e recebia confirmações de que seus pedidos haviam sido atendidos. Em 2023, a empresa BJ Conteúdo, ligada a Samor, teve 49,86% de sua participação adquirida pela Foone, ligada a Flávio Carneiro, assessor de imagem de Vorcaro.

Em fevereiro de 2024, Vorcaro solicitou a retirada de uma referência ao agronegócio em uma reportagem sobre o banco, pedido que foi prontamente atendido. Em outra instância, o nome do Banco Voiter foi retirado de uma publicação sobre o Will Bank a pedido do banqueiro.

Vorcaro também recebeu antecipadamente uma reportagem sobre um evento do Master em Londres, com a participação de Tony Blair, e pediu a inclusão de informações sobre ministros do STF. O Brazil Journal e seu fundador não responderam aos contatos da Jovem Pan.

PlatôBR: Intermediário Flávio Carneiro e Controle Editorial

No PlatôBR, a influência de Vorcaro era exercida por meio de Flávio Carneiro, cuja empresa, Foone, possuía participação societária no site. Em março de 2025, Carneiro combinou com Vorcaro o envio de textos para avaliação antes da publicação, especialmente após o anúncio da tentativa de compra do Banco Master pelo BRB.

Vorcaro reclamou do destaque dado aos precatórios em uma entrevista do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, solicitando mudanças no texto e na apresentação da reportagem. Em agosto do mesmo ano, pediu que o PlatôBR não publicasse informações sobre Ciro Nogueira e Antônnio Rueda, e, no mesmo período, solicitou ataques a Ricardo Cappelli.

Carneiro também se comprometeu a solicitar a retirada de publicações negativas sobre o Master. O PlatôBR e Flávio Carneiro não responderam aos contatos da Jovem Pan.

IstoÉ e IstoÉ Dinheiro: Influência Direta e Negociações Societárias

As revistas IstoÉ e IstoÉ Dinheiro também estavam sob a influência de Vorcaro, com Flávio Carneiro atuando como investidor e Antônnio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, apontado como operador financeiro do banqueiro. Em 2024, Vorcaro solicitou uma capa da IstoÉ Dinheiro sobre a farmacêutica Biomm, na qual havia investido.

Em conversas, Vorcaro afirmou: “Na IstoÉ é que controlamos mais”, indicando um controle mais acentuado sobre essas publicações. Ele também pretendia acompanhar previamente publicações envolvendo políticos como Ciro Nogueira, Arthur Lira e Hugo Motta, determinando que assuntos relacionados a esses nomes não fossem publicados sem seu conhecimento.

A IstoÉ, a IstoÉ Dinheiro e Antônnio Carlos Freixo Júnior não responderam aos contatos da Jovem Pan.

Diário do Centro do Mundo (DCM): Pagamentos Mensais para Evitar Críticas

O Diário do Centro do Mundo (DCM) recebia pagamentos mensais para evitar a publicação de críticas a Daniel Vorcaro e ao Banco Master, segundo mensagens reveladas pelo UOL. A negociação era conduzida por Felipe Mourão, responsável pela reputação digital do banqueiro.

Em outubro de 2024, após uma notícia negativa, Vorcaro determinou um acordo financeiro mensal com o DCM, que previa a retirada de conteúdos negativos e a possibilidade de publicar mensalmente uma matéria positiva ou negativa sobre pessoas escolhidas pelo grupo ligado ao banqueiro. Mourão informou a Vorcaro que o acordo estava fechado e o site pago.

Em maio de 2025, após um artigo crítico ao Master, Vorcaro pediu sua retirada imediata, que foi efetuada no mesmo dia. O DCM, em nota, negou ter recebido recursos das pessoas investigadas e afirmou que a reportagem foi retirada do ar por falta de segurança na apuração, passando por Thiago Miranda, então CEO do veículo.

CartaCapital: Contratos Publicitários e Negociações Societárias

A relação entre Vorcaro e CartaCapital iniciou-se em 2021 com um contrato publicitário. Em dezembro de 2020, o banco já havia antecipado R$ 300 mil à publicação, e a publisher Manuela Carta chegou a solicitar recursos para auxiliar no pagamento de salários. Em agosto de 2023, a revista teria deixado a cargo de Vorcaro a decisão sobre a publicação de uma reportagem, enquanto negociavam sua possível entrada como sócio.

A negociação societária não se concretizou, mas em 2024, a executiva voltou a solicitar adiantamentos publicitários. Manuela Carta afirmou que os contratos seguiram práticas de mercado e negou interferência editorial, ressaltando a separação entre os setores comercial e editorial.

Grupo Globo: Pedidos de Matérias e Desligamento de Executivo

A relação de Vorcaro com Frederic Kachar, então diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio do Grupo Globo, envolveu pedidos para reportagens sobre sua então namorada, Martha Graeff, e sua empresa, Happy Aging. Cinco dias após um pedido de Vorcaro, Vogue, Marie Claire e Ela, de O Globo, publicaram matérias relacionadas ao lançamento da marca.

Vorcaro também solicitou uma capa de revista para Graeff, mas as conversas não comprovam que o pedido foi concretizado ou que as matérias foram pagas. Ele também reclamou da cobertura do Valor Econômico e da jornalista Malu Gaspar sobre o Banco Master, mas Kachar defendeu a autonomia dos jornalistas.

O Grupo Globo anunciou o desligamento de Frederic Kachar após ter acesso às conversas, classificando a relação como inadequada de um executivo com um anunciante e reafirmando seu compromisso com a ética e a independência editorial.

Portal Leo Dias: Retirada de Reportagem e Investimentos Cruzados

O Portal Leo Dias também aparece em mensagens relacionadas a investimentos de Vorcaro. Uma conversa menciona a preparação de uma oferta para a Rádio Transamérica e um contrato para adquirir participação em um negócio relacionado a Léo Dias. Uma reportagem do portal sobre o filme Dark Horse, de Jair Bolsonaro, foi retirada do ar após reclamações do banqueiro, que criticou a divulgação da produção.

Segundo o Intercept Brasil, o intermediário Thiago Miranda concordou com a reclamação e comunicou a exclusão do conteúdo. O Intercept também informou que uma empresa de Léo Dias recebeu recursos do Banco Master em contratos comerciais. O Portal Leo Dias afirmou que a reportagem foi retirada por falta de segurança na apuração e que os repasses financeiros estavam ligados a contratos de publicidade com o Will Bank.

Consultor Jurídico (ConJur): Financiamento de Eventos e Exclusão de Participantes

Mensagens no celular de Vorcaro mostram contatos com Mário Chaer, fundador do portal Consultor Jurídico (ConJur), relacionados à organização de eventos com autoridades. O banqueiro financiou um fórum jurídico em Londres em abril de 2024, com participação de ministros do STF e STJ.

Chaer mediou mesas de debates e conversou com Vorcaro sobre a lista de convidados. Uma mensagem revela que Vorcaro tratou com Chaer a exclusão do empresário Joesley Batista da lista de participantes, após consultar o ministro Alexandre de Moraes. As conversas mostram a participação de Chaer na articulação do evento, mas não indicam poder de decisão de Vorcaro sobre as reportagens do portal.

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