Economia Argentina: Um Cenário de Altos e Baixos com Crescimento e Queda da Inflação, mas Aumento da Pobreza e Desemprego
A economia da Argentina se tornou um ponto central no debate eleitoral brasileiro, com o presidente Lula questionando a possível adoção do modelo de Javier Milei no Brasil. No entanto, os indicadores econômicos do país vizinho revelam um quadro complexo e de contrastes.
Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) argentino tem apresentado crescimento e a inflação mensal desacelerou significativamente, outros indicadores sociais e econômicos preocupam. A pobreza e o desemprego voltaram a subir, e setores cruciais para a geração de empregos, como o consumo e a indústria, enfrentam dificuldades.
Os dados, divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) e outras fontes oficiais, pintam um retrato de uma recuperação desigual. Entenda os detalhes desse cenário desafiador que afeta milhões de argentinos.
PIB Cresce, Mas com Desaceleração e Recuperação Desigual
O Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina registrou crescimento nos primeiros trimestres de 2026. No primeiro trimestre, a alta foi de 2,3% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Já no segundo trimestre, o crescimento foi de 2%, conforme dados do Indec. Contudo, essa expansão esconde uma perda de ritmo.
No segundo trimestre, o PIB teve uma queda de 0,6% em relação aos três primeiros meses do ano, já descontados os efeitos sazonais. O consumo privado recuou 2,4%, o consumo público diminuiu 2,3% e os investimentos caíram 0,8%. A formação bruta de capital fixo, um indicador de investimentos, teve uma queda anual de 11,1%.
A composição desse crescimento evidencia uma recuperação concentrada. Atividades ligadas às exportações, como pesca, mineração e agropecuária, foram os principais motores. A pesca, por exemplo, cresceu impressionantes 44,7% no segundo trimestre. As exportações de bens e serviços aumentaram 13,7%, enquanto as importações diminuíram 8,6%.
Em contrapartida, a indústria manufatureira sofreu um recuo de 2,1% no segundo trimestre e uma queda de 12% no primeiro semestre do ano. O comércio varejista também apresentou retração. Essa dinâmica aponta para uma economia que avança impulsionada pelo setor externo, mas com dificuldades em setores voltados ao mercado interno.
Inflação Desacelera, Mas Pobreza e Extrema Pobreza Aumentam
Um dos pontos fortes reivindicados pelo governo de Javier Milei é a queda expressiva da inflação. O índice oficial, que chegou a quase 290% em 12 meses, foi reduzido para cerca de 30% nos primeiros dois anos de sua gestão. Em agosto de 2026, a inflação mensal atingiu 1,7%, o menor índice desde junho de 2025.
Essa estabilização dos preços foi acompanhada por um forte ajuste fiscal, com cortes de gastos públicos e retirada de subsídios. Inicialmente, a redução da inflação trouxe uma queda na pobreza, que havia atingido 52,9% em 2024. No entanto, essa melhora perdeu força em 2026.
A taxa de pobreza subiu para 32,3% no primeiro semestre de 2026, um aumento em relação aos 28,2% do segundo semestre de 2025. Isso significa que 9,7 milhões de argentinos viviam abaixo da linha da pobreza, segundo o Indec. A extrema pobreza também cresceu, passando de 6,3% para 7,5% da população pesquisada, afetando 2,2 milhões de pessoas.
Mercado de Trabalho Sob Pressão e Empresas em Dificuldade
O mercado de trabalho argentino reflete as dificuldades da recuperação econômica. A taxa de desemprego atingiu 7,9% no segundo trimestre de 2026, um leve aumento em relação aos 7,6% do mesmo período de 2025. Aproximadamente 1,8 milhão de argentinos estavam desempregados nos principais aglomerados urbanos.
Além do desemprego, a informalidade é um problema persistente, com quase metade da população economicamente ativa trabalhando sem vínculos formais. Esse cenário combina uma inflação controlada com dificuldades para converter a estabilização econômica em melhorias contínuas nas condições de vida da população.
A situação das empresas também é preocupante. O número de empregadores com pelo menos um funcionário registrado no sistema de seguro contra acidentes caiu 6,3% entre novembro de 2023 e julho de 2026, totalizando 32.290 empregadores a menos. Essa retração já dura 18 meses consecutivos.
Entidades empresariais apontam que o consumo enfraquecido, os altos custos de energia e as dificuldades de financiamento pressionam especialmente as pequenas e médias empresas. A maior abertura às importações também tem prejudicado a produção local, com o aumento de 34,7% nas compras externas de bens de consumo no primeiro semestre de 2026, enquanto a produção industrial caiu 12% no mesmo período.
