Falha de segurança no Smart Sampa: Acesso indevido a câmeras expõe dados sensíveis de São Paulo
Uma grave falha de segurança no Smart Sampa, o maior sistema de vigilância pública da América Latina, permitiu o acesso indevido a mais de 58 mil câmeras por quase um ano. Informações sigilosas, que deveriam ser restritas, foram expostas na internet, colocando em risco a segurança de milhões de cidadãos paulistanos.
A reportagem do UOL localizou e conseguiu acessar dados confidenciais da plataforma, que incluem imagens de creches, escolas, hospitais e do cotidiano das ruas da capital. Especialistas alertam que essa brecha pode ser explorada pelo crime organizado.
A Prefeitura de São Paulo informou que um servidor foi responsável pelo vazamento ilegal de dados. Ele já foi identificado, afastado e está sob investigação. A prefeitura garante que não há fragilidades na plataforma do Smart Sampa, mas não detalha os controles para evitar novos vazamentos. Conforme apurado pelo UOL.
Detalhes chocantes da exposição de dados
As informações sensíveis permaneceram em um repositório público na internet por aproximadamente 11 meses. Após o alerta da reportagem, os dados foram removidos. Foram expostos 181 logins e senhas de usuários autorizados, dados de mais de 6.000 agentes de segurança, e instruções que permitiriam replicar o sistema em qualquer dispositivo.
Esta falha ocorre em um momento chave para a gestão do prefeito Ricardo Nunes, que utiliza o Smart Sampa como vitrine de sua administração, divulgando prisões de foragidos. O sistema, que emprega inteligência artificial para reconhecimento facial e identificação de veículos, inspirou propostas para expansão em nível nacional.
Especialistas alertam para riscos de segurança nacional
O professor da FGV, Rafael Alcadipani, especialista em segurança pública, classificou o incidente como um problema de segurança nacional. Ele destacou que o acesso a essas informações pode revelar a localização de autoridades, viaturas e equipamentos de defesa da cidade, o que é considerado gravíssimo.
Alcadipani comparou a situação a episódios onde câmeras foram usadas para mapear rotinas de segurança, facilitando ataques. Ele ressaltou o perigo de uma ferramenta criada para combater o crime ser utilizada por ele contra o próprio Estado.
Vulnerabilidades e o papel da tecnologia
Um especialista em tecnologia ouvido pelo UOL identificou que a brecha permitiria, inclusive, a inserção de dados no sistema, pois algumas interfaces não verificam adequadamente a identidade de quem envia as informações. Os logins expostos permitiam acesso direto à plataforma da empresa Sentinelx, sem medidas básicas de segurança como autenticação de dois fatores.
A Prefeitura de São Paulo informou que, após o questionamento da reportagem, o sistema passou a exigir autenticação de dois fatores. As credenciais de usuários, em muitos casos, eram simples e relacionadas aos dados de registro dos agentes. Ao acessar a plataforma, era possível pesquisar nomes, CPFs e placas de veículos, além de acessar boletins de ocorrência.
Privacidade e LGPD em risco
Pedro Saliba, pesquisador da Data Privacy Brasil, classificou a exposição como uma falha gravíssima em termos de privacidade e vigilância. Ele ressaltou que a concentração de informações em sistemas de vigilância sem controles adequados amplia os riscos de abuso aos direitos fundamentais dos cidadãos.
Saliba enfatizou que, mesmo na segurança pública, o tratamento de dados deve seguir os princípios da LGPD, como finalidade, necessidade, segurança e transparência. A integração de tantos equipamentos em uma rede gigantesca exige cuidados redobrados, questionando a exposição de crianças, adolescentes e pessoas em tratamento de saúde mental.
O mistério dos algoritmos e a fiscalização
A Prefeitura de São Paulo não tem acesso ao código-fonte, modelos de inteligência artificial ou bases de dados usadas para treinar os algoritmos do reconhecimento facial do Smart Sampa, que estão sob controle da Sentinelx. O município também não participa diretamente do desenvolvimento dos algoritmos nem possui detalhes sobre os critérios de treinamento, segundo a Secretaria da Segurança Urbana.
Não há auditorias independentes dos modelos, e a fiscalização municipal se limita à verificação de requisitos técnicos. A taxa mínima de similaridade facial para alertas foi elevada de 90% para 92% em fevereiro de 2025, mas dados sobre a taxa de erro do sistema não estão disponíveis.
Abordagens equivocadas e condenações
Relatórios de transparência da prefeitura apontam abordagens equivocadas, com 268 pessoas conduzidas a delegacias após alertas do reconhecimento facial e posteriormente liberadas entre novembro de 2024 e maio de 2026. Deste total, 75 casos tiveram inconsistências na identificação facial, 181 por mandados de prisão desatualizados e 12 por problemas cadastrais. Essas liberações representam 7,9% das 3.400 conduções registradas no período.
Um caso notório envolveu a condenação da prefeitura e do estado a pagar R$ 10 mil a um entregador que foi abordado duas vezes por engano. Em outra situação, um homem foi levado incorretamente à delegacia quatro vezes devido a uma foto equivocada. Um dos casos de maior repercussão foi a detenção da irmã do prefeito Ricardo Nunes.
A empresa por trás do sistema e a licitação
A tecnologia do Smart Sampa está sob responsabilidade da Sentinelx, empresa criada um mês após a assinatura do contrato da prefeitura para o sistema de vigilância. A Sentinelx integra o consórcio Smart City, que venceu a licitação em julho de 2023, com uma proposta de R$ 9,8 milhões por mês. A empresa entrou no consórcio por meio de um aditivo contratual em dezembro do ano passado, substituindo a Camerite.
A CLD, empresa com origem na construção civil e que já esteve envolvida em investigações sobre contratos públicos, também faz parte do consórcio. A coordenadora do Smart Sampa na prefeitura, Pamella Cecarelli Candido, tem histórico de trabalho em campanhas políticas ligadas ao ex-secretário da Segurança Urbana, Orlando Morando.
Expansão e promessas de segurança
A Sentinelx busca expandir a venda da plataforma para outras cidades, prometendo a tecnologia “por trás da maior operação de videomonitoramento com IA da América Latina”. Entre os atrativos, destaca-se o controle de acesso ao sistema. A Prefeitura de São Paulo, em nota oficial, reforçou que o incidente foi um ato criminoso de um servidor e que medidas de segurança foram reforçadas, incluindo autenticação em dois fatores.
