Primeiras conversas de paz entre Irã e EUA no Paquistão: um marco histórico em meio à guerra
Delegações do Irã e dos Estados Unidos se reuniram em Islamabad, capital do Paquistão, em um encontro histórico, o de mais alto nível entre os dois países desde a Revolução Islâmica de 1979. As conversas, que se estenderam por mais de 15 horas, visam encontrar um caminho para o fim do conflito iniciado em 28 de fevereiro, após um ataque americano-israelense ao território iraniano.
O primeiro dia de negociações, que ocorreu durante o sábado e a madrugada de domingo no Paquistão, transcorreu a portas fechadas no Serena Hotel. Poucos detalhes foram divulgados sobre o conteúdo exato das discussões, mas a própria realização do encontro já representa um avanço significativo, dado o histórico de desconfiança mútua e as interrupções em diálogos anteriores devido ao conflito.
As reuniões ocorreram após representantes de ambos os países se encontrarem separadamente com o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif. Ele expressou a esperança de que ambas as partes se engajem de maneira construtiva, buscando uma solução pacífica para a guerra que tem abalado o Oriente Médio e a economia global. Conforme informações da Casa Branca, as conversas presenciais entre EUA, Irã e Paquistão foram confirmadas.
O papel de J.D. Vance e a desconfiança iraniana
O Irã chegou a Islamabad com uma profunda desconfiança em relação à diplomacia, insistindo em tratar apenas com autoridades americanas de alta graduação. A demanda do país foi por um interlocutor como o vice-presidente J.D. Vance, visto como um opositor de envolvimentos militares custosos na administração do presidente Donald Trump. Trump, por sua vez, comentou em redes sociais que estava recebendo relatos das conversas e declarou a repórteres que um acordo com o Irã não faria diferença para ele.
A missão de J.D. Vance tem sido considerada a mais desafiadora de sua vice-presidência, com potencial limitado de retorno e muito a perder caso as negociações falhem. Para avançar em direção a um acordo permanente, Vance precisa gerenciar os interesses de diversos atores com visões conflitantes, que desconfiam uns dos outros após semanas de campanha militar e impacto econômico.
Estreito de Ormuz e a escalada de tensões
Em meio às negociações, o presidente Donald Trump afirmou que o Irã estava “perdendo muito” no conflito e que os EUA estavam “desobstruindo” o Estreito de Ormuz. O Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) publicou uma mensagem no X informando o início da remoção de minas no estreito e a passagem de duas embarcações. No entanto, o Irã negou veementemente a alegação do Centcom, conforme divulgado pela agência de notícias iraniana Fars, citando um porta-voz das forças armadas.
O porta-voz iraniano declarou que a alegação de aproximação e entrada de embarcações americanas no Estreito de Ormuz é “firmemente negada”. Ele enfatizou que a iniciativa para a passagem de qualquer embarcação cabe às forças armadas da República Islâmica do Irã, demonstrando a persistência das tensões na região mesmo durante os esforços diplomáticos.
Israel e Líbano: negociações de paz em paralelo
Enquanto as conversas entre Irã e EUA ocorriam no Paquistão, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou ter aprovado negociações de paz com o Líbano. A decisão surge após os militares israelenses afirmarem ter atingido mais de 200 alvos do Hezbollah nas últimas 24 horas. Netanyahu declarou que o Líbano contatou Israel diversas vezes no último mês para iniciar conversas diretas.
Netanyahu estabeleceu duas condições para a paz: o desmantelamento das armas do Hezbollah e um acordo de paz duradouro. Embaixadores dos dois países nos EUA concordaram em se reunir em Washington na próxima semana para anunciar um cessar-fogo. No entanto, o vice-primeiro-ministro do Líbano, Tarek Mitri, ressaltou à BBC que, para as conversas serem “significativas”, Israel deveria interromper seus ataques ao país. Ele mencionou que a continuidade das mortes e ferimentos dificulta um diálogo construtivo, mas confirmou a presença na reunião no Departamento de Estado. O Ministério da Saúde do Líbano reportou mais de 2 mil mortos e 6,4 mil feridos desde 2 de março.
