O sofrimento silencioso de crianças em Gaza: a perda da fala como sintoma de traumas extremos
A guerra em Gaza tem deixado um rastro de destruição e dor, afetando profundamente a vida de seus habitantes. Entre as vítimas mais vulneráveis estão as crianças, que enfrentam horrores inimagináveis. Uma consequência alarmante desse conflito é o surgimento de um “sofrimento silencioso”, onde crianças perdem a capacidade de falar como uma resposta neurológica ao estresse e ao trauma avassalador.
A psicoterapeuta infantil Katrin Glatz Brubakk, da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), tem testemunhado de perto essa realidade em suas missões a Gaza. Ela descreve um cenário onde a violência contínua e a destruição generalizada levam a um estado de medo constante, impactando severamente o desenvolvimento infantil.
“Não há nenhuma criança em Gaza que não esteja traumatizada”, afirma Brubakk. “Há mais de um milhão de crianças que sofreram traumas graves.” A perda da fala, embora não seja uma escolha consciente, é uma manifestação neurológica extrema do impacto da guerra, como detalhado em entrevista à BBC News Mundo. A seguir, exploramos as causas, consequências e os esforços para ajudar essas crianças.
Trauma Extremo e a Perda da Comunicação
Katrin Glatz Brubakk explica que a exposição prolongada a situações de perigo e incerteza leva o sistema nervoso das crianças a um estado de sobrecarga. Essa condição extrema pode resultar em duas reações principais: agitação e problemas comportamentais visíveis, ou um bloqueio completo, onde a criança se retrai. A perda da fala é uma forma de autoproteção nesse retraimento.
“É como se seu sistema nervoso dissesse: ‘Não aguento mais’. E a forma de se proteger é retraindo-se. A linguagem faz parte disso”, detalha a psicoterapeuta. Para essas crianças, o silêncio torna-se uma barreira contra um mundo que lhes inflige dor constante. A incapacidade de falar não é uma escolha, mas uma resposta neurológica ao trauma.
O trauma em Gaza é descrito como avassalador. Crianças fogem de suas casas, perdem entes queridos e testemunham cenas de extrema violência. Brubakk relata casos em que crianças ajudaram a recolher restos humanos nas ruas. A ausência de segurança e a destruição de tudo o que conheciam apagam a confiança básica no mundo, essencial para o desenvolvimento infantil.
O Caso de Adam: Um Símbolo do Sofrimento Silencioso
Um dos exemplos mais tocantes é o de Adam, um menino de 5 anos que, após presenciar a morte de seu pai e sofrer ferimentos graves em um bombardeio, deixou de falar. Antes, uma criança alegre e falante, Adam passou a se comunicar apenas por sussurros com a mãe, recusando-se a interagir com o mundo exterior.
“Após presenciar a morte do pai, o menino deixou de falar”, narra Brubakk. “Às vezes conseguia sussurrar alguma palavra isolada à mãe, mas não queria falar com ninguém.” A perda da fala de Adam é um reflexo direto do trauma extremo vivenciado, impactando seu desenvolvimento e bem-estar.
A psicoterapeuta ressalta que a falta de desenvolvimento linguístico e a interrupção de interações sociais normais podem ter consequências duradouras. “Se uma criança permanece em um estado como o de Adam, retraída, sem desenvolvimento nem linguagem, se é mantida nessa situação de estresse extremo por muito tempo, terá problemas mais adiante na vida. Nunca se recuperará.”
Danos Cerebrais e o Caminho para a Recuperação
O trauma prolongado pode causar alterações físicas no cérebro das crianças. Brubakk explica que a amígdala, responsável pelas emoções intensas, pode aumentar de tamanho, enquanto o córtex pré-frontal, crucial para funções como planejamento e regulação emocional, pode apresentar subdesenvolvimento.
“Sabemos que, em crianças que sofreram trauma grave, a amígdala, a parte do cérebro responsável por emoções intensas, aumenta de tamanho”, explica. “E o córtex pré-frontal, a parte do cérebro que se desenvolve mais tarde e que é responsável por funções como planejamento, resolução de problemas, interação social e regulação emocional, encontra-se subdesenvolvido.”
Para ajudar crianças como Adam, a abordagem envolve criar pequenos “espaços seguros” e demonstrar apoio contínuo. Brubakk utilizou a interação através da mãe de Adam, gradualmente introduzindo a comunicação, o que gerou uma resposta inicial do menino, um pequeno passo para a reconexão com o mundo.
Um método terapêutico utilizado são as “bolhas de esperança”. Soprar bolhas de sabão, de forma lenta e controlada, ajuda a acalmar o sistema nervoso, permitindo que a amígdala se tranquilize e o córtex pré-frontal tenha mais espaço para se desenvolver. Essa atividade simples, mas poderosa, ajuda a criança a sair do estado de estresse e a se reconectar com o presente.
O Impacto Global e o Apelo por Paz
Katrin Glatz Brubakk enfatiza que o nível de trauma e destruição em Gaza é incomparável a outras zonas de conflito onde atuou. A falta de um local seguro e o ataque sistemático ao sistema de saúde agravam a situação. Ela lamenta não poder retornar a Gaza devido a restrições de acesso para equipes internacionais.
“A única coisa correta e o que as crianças de Gaza precisam agora é que façamos todo o possível, dentro das nossas possibilidades, para lhes proporcionar uma paz verdadeira”, apela Brubakk. “Devolvê-las a vida, dar-lhes a possibilidade de viver em lugares seguros, de ir à escola.”
A psicoterapeuta, inspirada pelo lema “nunca mais” de sua mãe, que viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial, dedica sua vida a proteger crianças do trauma. Ela conclui com um apelo: “Use sua voz para que a pressão seja suficiente e essa paz finalmente chegue a Gaza. Caso contrário, estaremos destruindo toda uma geração de crianças.”
