Entenda por que a apuração interminável no Peru se tornou um marco eleitoral e o que causa a demora na divulgação dos resultados oficiais.
Os peruanos aguardam ansiosamente o desfecho de suas eleições presidenciais, mas o processo de apuração no país é notoriamente lento, rendendo ao Peru o apelido de “o país da apuração interminável”. O resultado do segundo turno, disputado entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez, ainda não foi definido, refletindo uma característica histórica dos pleitos peruanos.
A demora na divulgação dos resultados oficiais não é um evento isolado, mas sim um padrão que se repete a cada eleição. Fatores como a utilização de cédulas de papel, a complexidade geográfica e a disputa acirrada entre os candidatos contribuem significativamente para este cenário, que pode se estender por semanas ou até meses.
Conforme informação divulgada pelo jornal espanhol “El País”, a lentidão no processo eleitoral peruano se deve a uma combinação de elementos logísticos e políticos. Acompanhe os principais motivos que explicam por que o Peru se destaca pela sua apuração interminável e quais são os impactos disso para a democracia do país.
Cédulas de papel e o desafio da contagem manual
Diferentemente do Brasil, onde as urnas eletrônicas agilizam o processo, no Peru a votação é majoritariamente realizada com cédulas de papel. Essas cédulas são depositadas em urnas físicas e, posteriormente, contadas manualmente pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE). Embora existam exceções para militares em locais remotos e pessoas com deficiência, que podem votar digitalmente, a grande maioria dos votos ainda passa pelo processo de contagem manual, o que inerentemente aumenta o tempo necessário para a apuração completa.
Geografia desafiadora e o transporte das urnas
A geografia desafiadora do Peru representa um obstáculo significativo para a agilidade eleitoral. Regiões remotas, como as serras de Cusco e a Amazônia em Loreto, dificultam o transporte rápido das urnas para os centros de contagem. Em muitas ocasiões, a apuração nessas áreas fica atrasada em relação à média nacional, como ocorreu na tarde desta terça-feira (9), quando 96,0% das urnas haviam sido contabilizadas, mas regiões como Cusco (91%) e Loreto (93%) ainda apresentavam atrasos.
Voto no exterior e a burocracia dos consulados
O voto dos peruanos residentes no exterior também contribui para a demora. Embora as regras eleitorais permitam o voto digital para expatriados, na prática, os consulados muitas vezes não disponibilizam essa modalidade, forçando os eleitores a se deslocarem a postos de votação. As urnas, então, precisam ser enviadas de volta ao Peru para a contagem, tornando o voto dos peruanos no exterior o menos computado. Até a tarde de terça-feira, apenas 31% das urnas vindas do exterior haviam sido contabilizadas.
Disputas acirradas e o alto número de contestações
Um dos principais fatores que prolongam a definição dos resultados no Peru é a disputa acirrada entre os candidatos. As eleições frequentemente são decididas por margens mínimas de votos, o que incentiva contestações. Nos dois últimos pleitos, Keiko Fujimori obteve resultados muito próximos, com 49,88% e 49,87% dos votos válidos. Essa tendência se repetiu no primeiro turno, onde Roberto Sánchez superou o terceiro colocado por apenas 21.210 votos. Além disso, partidos políticos podem apontar inconsistências nas atas e realizar contestações ou denúncias de fraudes, que o Jurado Nacional de Eleitores (JNE) precisa julgar, podendo até mesmo determinar uma recontagem. No primeiro turno, mais de 68 mil atas eleitorais foram contestadas, resultando na recontagem de mais de 1 milhão de votos, o que atrasou significativamente a divulgação do resultado oficial.
