Canetas emagrecedoras: um fenômeno que divide opiniões e acende alerta sobre saúde e beleza
A busca por um corpo mais magro e a manutenção desse ideal se tornaram uma constante na sociedade atual. Com a promessa de resultados rápidos e sem o temido efeito sanfona, as chamadas “canetas emagrecedoras”, como Ozempic e Mounjaro, ganharam destaque e se tornaram um item de desejo, impulsionando uma nova rotina de beleza. No entanto, o uso indiscriminado desses medicamentos, originalmente desenvolvidos para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, acende um sinal vermelho entre especialistas sobre os riscos à saúde e a criação de dependência psicológica.
A facilidade de acesso e a popularização através das redes sociais transformaram essas substâncias em verdadeiros símbolos de status e aceitação social. O que antes era um tratamento médico para condições específicas, agora é visto por muitos como um atalho para atingir padrões estéticos muitas vezes inatingíveis apenas com dieta e exercícios. Conforme informações divulgadas, a procura pelas canetas está ligada menos à saúde e mais a um ideal de magreza associado a status e aceitação social, o que pesquisadores descrevem como uma “economia moral do corpo”.
Apesar dos benefícios evidentes para o controle de peso em casos de obesidade, a Anvisa autoriza o uso desses medicamentos apenas para pessoas com IMC acima de 30, ou acima de 27 com doenças associadas, como diabetes ou hipertensão. O uso fora dessas indicações médicas levanta preocupações sobre efeitos colaterais e a falta de dados consolidados sobre as consequências a longo prazo. Entenda os perigos e as motivações por trás dessa nova tendência.
A “moda” das canetas emagrecedoras e seus impulsionadores
O endocrinologista Bruno Halpern, presidente da World Obesity Federation, aponta que o uso do Mounjaro se tornou uma “moda” e um sinônimo de luxo, principalmente devido ao seu custo elevado. Ele observa que as pessoas passaram a usar o medicamento porque “os outros estão usando”, o que é um comportamento perigoso quando se trata de medicação. A publicitária Jéssica, 33 anos, relata ter procurado o Ozempic após ter ganhado peso durante a pandemia, mesmo já estando em um peso considerado saudável.
Ela conta que, após perder 6 kg em um mês com Mounjaro, recuperou 3 ou 4 kg, o que a levou a adotar um ciclo de uso do medicamento duas vezes por ano. “É vaidade. Está muito fácil, e sempre quero emagrecer um pouquinho”, confessa. A busca por um corpo cada vez mais magro e musculoso, um ideal promovido nas redes sociais, também contribui para essa demanda. A médica Tayná Santiago, pós-graduada em nutrologia, observa que muitos pacientes buscam um tipo de corpo difícil de manter apenas com dieta e exercício, e que o Mounjaro se torna uma “muleta”, podendo gerar dependência psicológica e até distúrbios de imagem.
Riscos e efeitos colaterais do uso indiscriminado
Embora os análogos de GLP-1, como os presentes nas canetas emagrecedoras, não gerem dependência química por imitarem hormônios naturais, o uso sem critério médico acarreta riscos significativos. “Pessoas que não precisam emagrecer podem perder sua boa condição de saúde”, alerta Bruno Gelonese Neto, endocrinologista da Unicamp. Ele explica que a obesidade é uma doença crônica que requer controle, e que o medicamento é potente para isso, mas vem sendo desvirtuado para fins estéticos.
Os efeitos colaterais mais comuns incluem náuseas, vômitos, desidratação, que podem se intensificar sem acompanhamento médico. Há também o risco de queda de cabelo, ligada à perda rápida de peso, e, em casos mais graves, de pancreatite e cálculos biliares. A interrupção do uso sem mudanças de hábitos pode levar ao reganho rápido de peso e a problemas na relação com a alimentação. Além disso, a circulação de produtos falsificados ou sem registro, muitas vezes adquiridos em redes sociais ou vindos do Paraguai, representa um perigo adicional, podendo causar infecções.
A obesidade como doença crônica e a necessidade de tratamento adequado
Especialistas ressaltam que o foco principal dos medicamentos como Mounjaro e Ozempic é o tratamento da obesidade, uma condição de saúde crônica. Bruno Gelonese Neto afirma que “pessoas com obesidade e problemas de saúde se beneficiam de perder peso e manter essa perda ao longo do tempo”. Essa perda de peso pode até reduzir o risco de doenças como Alzheimer e Parkinson, um benefício que não se aplica a quem tem poucos quilos a mais. “Não é o caso de quem tem poucos quilos a mais”, enfatiza.
Tayná Santiago defende o uso para manutenção de peso em casos de obesidade, pois “é muito mais fácil manejar 2 kg ou 3 kg do que a pessoa entrar no automático e ganhar 15 kg ou 20 kg de novo”. Ela, que também luta contra a balança desde jovem, defende que terapia e autoconhecimento caminhem junto ao uso do remédio, pois o medicamento “silencia a cabeça, tira o ‘food noise’, quando a pessoa pensa o tempo todo em comida”.
O mercado em expansão e a automedicação no Brasil
As “canetas emagrecedoras” movimentam um mercado em franca expansão. Segundo a Anvisa, em 2023, foram vendidas mais de 4,6 milhões de caixas no país, número que subiu para mais de 8,3 milhões em 2025, considerando apenas as vendas oficiais. A banalização é tanta que uma noiva chegou a trocar o buquê por uma caixa de Mounjaro em seu casamento, um ato que, embora tenha sido divulgado como brincadeira, reflete a percepção de normalidade em torno do uso dessas substâncias. A influenciadora Luara Bettiol, 32, que esteve envolvida no episódio, afirma que “foi uma brincadeira” e que a ideia surgiu de uma parceria com uma clínica estética.
No Brasil, a automedicação é alarmante: 90% da população utiliza remédios sem acompanhamento médico, segundo pesquisa do ICTQ de 2024. Desses, 68% recorrem ao Google para se informar. A exigência de receita médica não impede a circulação desses medicamentos, que são oferecidos em redes sociais e em versões manipuladas ou vindas do exterior. “Não há recomendação médica para uso estético em pessoas saudáveis. Quando ocorre, é prescrição inadequada, que fere princípios científicos e éticos”, conclui o pesquisador da Unicamp.
