Humberto Guedes e a Engenharia Intelectual que Construiu Rondônia: A História por Trás do Estado Moderno
Nas últimas cinco décadas, a trajetória de Rondônia foi marcada pela atuação de grandes líderes militares. Dentre eles, o Coronel Humberto da Silva Guedes, falecido recentemente aos 103 anos, se destaca como um arquiteto intelectual fundamental para o desenvolvimento do estado. Nomeado pelo presidente Ernesto Geisel, Guedes governou o Território Federal entre 1975 e 1979, período crucial para a estruturação que permitiu a Rondônia se tornar o estado próspero que é hoje.
Apesar de Jorge Teixeira ser lembrado como o consolidador, a robustez econômica e o crescimento atual de Rondônia são, em grande parte, frutos do trabalho de planejamento e da engenharia intelectual capitaneados por Guedes e pelo Capitão Silvio. Conforme detalhado por Silvio Persivo em seu artigo, a visão estratégica de Guedes foi essencial para desenhar o mapa do crescimento e a distribuição espacial da então jovem estrela da Amazônia.
Este artigo explora a fundo o legado de Humberto Guedes, revelando como o planejamento científico da década de 1970, com inspiração em nomes como Milton Santos e Charles Müller, lançou os alicerces do novo estado. A análise de Persivo demonstra que a vocação de crescimento e a solidez econômica de Rondônia não surgiram por acaso, mas foram cuidadosamente planejadas.
O Cenário de 1975: Desafios e a Urgência do Protagonismo Estatal
Ao assumir o governo do Território Federal de Rondônia em 1975, o Coronel Humberto da Silva Guedes encontrou uma administração rudimentar. A estrutura era limitada a poucos departamentos e a população não ultrapassava 140 mil habitantes, concentrada em apenas dois municípios e vilas incipientes ao longo da BR-364.
Paralelamente, o Projeto Integrado de Ouro Preto, do Incra, impulsionava a ocupação com a distribuição de lotes para pequenos produtores, fomentando culturas como o café e o cacau. Contudo, a rápida ocupação gerava atritos institucionais, com o Incra e o governo territorial operando sob ordens distintas vindas de Brasília, resultando em falta de diálogo e ineficiências.
Guedes, com sua visão humanista e intelectual, percebeu a necessidade do governo local assumir o protagonismo. Ele compreendeu que a falta de coordenação e a dependência de aprovações externas limitavam o desenvolvimento regional, impulsionando a busca por autonomia e planejamento próprio.
A Visão Intelectual e a Escola de Planejamento de Guedes
Em 1976, Guedes apresentou suas teses sobre a viabilidade socioeconômica da transição para estado. Ele enfatizou a importância da inteligência e do esforço científico dos técnicos locais para um amanhã equilibrado para Rondônia. Para ele, o desenvolvimento exigia simetria econômica, espacial e urbana, aprendendo com os erros de outras unidades federativas.
Sua visão de vanguarda rejeitava soluções habitacionais precárias. Guedes defendia uma arquitetura vernacular adaptada ao clima equatorial, inspirada em construções históricas. Suas metas macroeconômicas, como a criação de um matadouro industrial, usina de leite e a pavimentação da BR-364, pareciam utópicas na época, mas foram fundamentais para o futuro.
As Bases Científicas: De Milton Santos ao Polonoroeste
O déficit de energia e a malha rodoviária eram os maiores desafios. Guedes atuou contratando consultoria para um plano rodoviário territorial e apoiando a viabilização de usinas hidrelétricas. Ele também buscou embasamento científico para a elevação de Rondônia à categoria de estado.
Para isso, contratou o professor Charles Müller da UnB e sua equipe para projetar um programa de desenvolvimento decenal, calculando os investimentos necessários para a autonomia administrativa. Esses estudos foram cruciais para a obtenção de recursos do Polonoroeste em 1981, que viabilizou o asfaltamento da BR-364 e a consolidação da fronteira agrícola.
A estrutura governamental foi modernizada com a criação da Secretaria de Planejamento (Seplan), liderada por seu filho, Luiz César Auvray Guedes. A Seplan tornou-se um laboratório de inovações, experimentando conceitos como orçamento participativo e planos setoriais.
Para organizar a malha urbana, o governo trouxe nomes como Roberto Monte-Mor e Antônio Carlos Cabral Carpintero para hierarquização das cidades, Paulo Magalhães para habitações e Paulo Zimbres para o sistema viário. Sob indicação de Silvio Sawaya, o renomado geógrafo Milton Santos foi contratado, fornecendo a base teórica para a distribuição de investimentos públicos em saúde, educação e segurança.
É importante ressaltar o papel dos técnicos locais na execução. A abertura de ruas e a fundação de cidades como Ariquemes foram realizadas por profissionais como Jorge Elage e José Mesch, transformando cruzamentos cartográficos em localidades planejadas sob o rigor do equilíbrio econômico e espacial.
O Legado de uma Dívida Histórica
O ecossistema técnico criado permitiu a Rondônia desenvolver, posteriormente, o Zoneamento Socioeconômico e Ecológico (ZSEE) e o Planafloro, referências globais na harmonização entre produção agropecuária e conservação ambiental.
Hoje, Rondônia exibe um PIB vigoroso e um equilíbrio urbano que remete ao papel do Paraná no Sul do país. O estado se destaca pela estabilidade territorial e horizontes de futuro. Embora o trabalho de migrantes tenha gerado riqueza, o projeto arquitetônico e a segurança jurídica desse progresso foram concebidos pelo cérebro do Coronel Humberto da Silva Guedes.
A ausência de um amplo reconhecimento público à sua estatura de estadista representa uma dívida de gratidão de Rondônia para com um dos principais construtores de sua grandeza contemporânea. A engenharia intelectual de Guedes é um pilar essencial na história de Rondônia.
