Terremotos na Venezuela deixam emblemático complexo habitacional de Hugo Chávez em ruínas, desalojando milhares.
A Venezuela enfrenta uma tragédia sem precedentes após uma sequência de terremotos, com magnitudes de 7,5 e 7,2, que abalaram o país na semana passada. O estado de La Guaira, o mais afetado, viu um dos símbolos do programa habitacional do falecido presidente Hugo Chávez, o Urbanismo Hugo Chávez, em Catia La Mar, tornar-se inabitável.
As equipes de resgate trabalham incansavelmente pelo quinto dia seguido, em meio a um cenário desolador de escombros, na esperança de encontrar sobreviventes. A devastação é imensa, com mais de 700 prédios colapsados, sendo que 189 desabaram completamente, segundo as autoridades, com grande impacto nas cidades de Caracas e La Guaira.
Moradores relatam o pânico vivido durante os tremores, que deixaram edifícios com rachaduras severas, bases cedidas e inclinações alarmantes. A exposição de vigas e o aspecto de colapso iminente são visíveis em muitas estruturas, agravadas por explosões de botijões de gás doméstico. As informações e dados sobre a extensão da tragédia foram divulgados pela agência de notícias AFP.
Moradores do Urbanismo Hugo Chávez vivem nas ruas após desabamento
Jenny Contreras, de 28 anos, é uma das milhares de pessoas que perderam seu lar. Ela, seu marido e seu filho de quatro anos dormem em um colchão improvisado na rua desde que o prédio onde viviam, um dos 192 do Urbanismo Hugo Chávez, começou a ceder. A moradora conseguiu resgatar apenas alguns pertences antes que a estrutura desmoronasse devido aos tremores secundários.
O conjunto habitacional, que abrigava cerca de 3.400 apartamentos distribuídos em quatro andares, agora é um amontoado de destroços. Os moradores retirados serão encaminhados para um abrigo em Caracas, mas muitos preferem permanecer próximos às ruínas, montando acampamentos improvisados com seus poucos pertences resgatados.
Alerta de especialistas sobre a qualidade das construções do “Misión Vivienda”
Especialistas já vinham alertando há tempos sobre o desgaste prematuro e os danos estruturais em edifícios construídos pelo programa “Misión Vivienda” (Missão Habitação), um dos pilares da gestão de Hugo Chávez. O Colégio de Engenheiros da Venezuela (CIV) emitiu diversos relatórios apontando a vulnerabilidade dessas construções e a falta de transparência na qualidade dos estudos de solo.
Dayana Lean, comerciante de 51 anos, descreve a destruição nas alas 1 e 3 do complexo, onde o desabamento foi total e muitos moradores ficaram presos. Ela expressa o desejo de ser realocada em apartamentos, mesmo que em outros estados, e rejeita a ideia de viver em um abrigo, afirmando que preferem se auto-organizar perto de suas antigas casas.
“Acampamentos temporários” e a busca por moradia digna
Diante da crise, a presidente interina, Delcy Rodríguez, anunciou a criação de “acampamentos temporários” para os desabrigados e prometeu a execução de novos projetos de construção de moradias em “um prazo muito curto”. No entanto, a incerteza paira sobre os moradores, como Sandra Racure, de 47 anos, que há 13 anos reside no complexo e lamenta a situação.
Em frente aos escombros de seus prédios, os moradores mantêm colchões, máquinas de lavar e móveis, numa tentativa de preservar o que restou de suas vidas. A solidariedade e a resiliência se manifestam enquanto esperam por soluções que ofereçam, no mínimo, um teto seguro e digno, longe da condição de “refugiados” em seu próprio país.
