Ditadura Argentina: Governo Milei divulga vídeo controverso nos 50 anos do golpe, enquanto país relembra as vítimas
Nesta terça-feira (24), a Argentina marcou os 50 anos do golpe militar que deu início a um dos períodos mais sombrios de sua história. O regime, que vigorou entre 1976 e 1983, é lembrado como um dos mais violentos do continente, com estimativas de cerca de 30.000 opositores mortos e milhares de desaparecidos e torturados.
Em contraste com a memória coletiva e as manifestações que tomaram as ruas de Buenos Aires, o governo do presidente Javier Milei optou por divulgar um vídeo que levanta questionamentos sobre a forma como o passado recente é lembrado, gerando forte repercussão.
A peça audiovisual, divulgada pela Casa Rosada, centro do poder executivo argentino, apresenta depoimentos que buscam relativizar os crimes cometidos durante a ditadura militar, focando em narrativas individuais e críticas ao kirchnerismo, que tem sido um dos principais articuladores da luta pela responsabilização dos militares envolvidos no regime. Conforme informação divulgada pelo portal G1, o vídeo busca apresentar uma perspectiva diferente sobre o período.
Vídeo oficial levanta polêmica com depoimentos e críticas
O vídeo, com pouco menos de oito anos de duração, contém duas entrevistas. A principal delas, gravada na própria Casa Rosada, traz o depoimento de Miriam Fernández. Ela foi uma das centenas de crianças cujos pais biológicos foram mortos em centros de tortura do regime militar.
Fernández, adotada ainda bebê por uma família leal aos militares, defende seus pais adotivos, um ex-policial e sua esposa, que foram condenados por crimes relacionados à ditadura. “Um pai não é aquele que te traz ao mundo, mas sim aquele que te cria”, afirma Fernández, argumentando que seus pais adotivos são os verdadeiros responsáveis por sua criação.
Ela também expressa o desejo de “deixar o passado em paz”, relatando ter sofrido preconceito por pertencer a uma família que apoiou o regime autoritário. Fernández critica a Associação Avós da Praça de Maio, dedicada a encontrar netos adotados clandestinamente durante a ditadura, acusando-a de “misturar política” com suas ações e relata ter sido submetida a um teste de DNA para confirmar sua identidade biológica.
Milhares marcham em Buenos Aires em ato de memória
Enquanto o governo divulgava o polêmico vídeo, dezenas de milhares de pessoas marcharam pelas ruas de Buenos Aires em uma jornada de memória pelos 50 anos do golpe de Estado. Sob o lema “Nunca mais”, que se tornou um marco para gerações, a mobilização reuniu organismos de direitos humanos, sindicatos e organizações sociais.
A marcha se estendeu da Praça de Maio até a Avenida 9 de Julho e ruas adjacentes, todas tomadas por manifestantes que carregavam fotos de desaparecidos. A convocatória para atos em todo o país reforçou o sentimento de memória e a luta pela justiça.
O legado da ditadura militar na Argentina
O regime militar que governou a Argentina entre 1976 e 1983 deixou um rastro de dor e violência. Estima-se que mais de 30 mil opositores foram mortos, e milhares outros torturados em centros clandestinos de detenção, como a ESMA (Escola de Mecânica da Armada), um dos símbolos da república.
A luta por justiça e memória continua sendo um pilar para a sociedade argentina, com o objetivo de garantir que os crimes cometidos durante a ditadura militar nunca sejam esquecidos ou relativizados. A data de 24 de março se tornou o Dia da Memória, Verdade e Justiça na Argentina, um lembrete constante da importância de preservar a história e defender os direitos humanos.
