O paradoxo de El Salvador: segurança a todo custo ou a perda da democracia?
Em El Salvador, a vida sob o presidente Nayib Bukele, há quatro anos, é marcada por uma profunda transformação na segurança pública. O país, antes assolado por facções criminosas e altas taxas de homicídio, experimenta agora uma drástica redução da violência. No entanto, essa nova realidade vem acompanhada de um aumento sem precedentes no número de encarcerados e preocupações sobre a concentração de poder nas mãos do presidente.
A reportagem da BBC News Brasil, detalhada no documentário “El Salvador: quando a exceção vira regra”, expõe o cotidiano dos salvadorenhos, que convivem com o alívio pela diminuição do domínio das gangues, mas também com o temor de um governo cada vez mais autoritário.
Moradores relatam uma mudança radical em bairros antes dominados pelo crime, como a Campanera, nos arredores de San Salvador. A professora Adélia Rosales, que presenciou cenas de violência extrema, agora vê crianças brincando nas ruas e a presença ostensiva de militares, um cenário inimaginável há poucos anos. Essa transformação, segundo a BBC News Brasil, é fruto do regime de exceção implementado em 2022, que permitiu prisões em massa e suspendeu garantias constitucionais.
O regime de exceção e seus efeitos colaterais
Desde a implementação do regime de exceção, cerca de 90 mil pessoas foram presas sob a acusação de ligações com facções criminosas. Essa política, embora tenha levado à queda acentuada nos índices de homicídios – de 103 por 100 mil habitantes em 2015 para 1,3 em 2025, segundo a BBC News Brasil –, também transformou El Salvador no país com a maior taxa de encarceramento do mundo, com 1.659 presos a cada 100 mil habitantes.
Organizações de direitos humanos apontam que muitas prisões ocorrem com base em denúncias anônimas, aparência física ou provas frágeis. A reportagem da BBC News Brasil destaca o caso de Marta Elena González, que soube da morte de um dos filhos presos pelo regime através de uma publicação no Facebook, sem ter sido notificada pelas autoridades. Seu filho, José Alfredo Vega González, é uma das 537 pessoas presas sob o regime de exceção que morreram sob custódia do Estado antes de serem julgadas, conforme dados da ONG Socorro Jurídico Humanitário.
Concentração de poder e o futuro democrático
Nayib Bukele desfruta de alta popularidade em El Salvador, com 67,4% de aprovação, segundo ranking da consultoria CB Global Data. No entanto, críticos acusam o presidente de concentrar poderes de forma sem precedentes, enfraquecendo as instituições democráticas. O Congresso é amplamente controlado por aliados de Bukele, e o Judiciário teve juízes da Sala Constitucional substituídos por nomes alinhados ao governo.
A possibilidade de reeleições ilimitadas e a extensão do mandato presidencial para seis anos, com Bukele já anunciando sua candidatura a um terceiro mandato, levantam preocupações sobre o futuro democrático do país. O cientista político Robert Muggah, citado pela BBC News Brasil, expressa receio sobre as implicações a longo prazo para a independência judicial e os direitos civis.
Economia em contraste: crescimento com pobreza persistente
A melhora nos indicadores de segurança impulsionou um boom imobiliário e um crescimento econômico de 3,9% em 2025, segundo o FMI. Contudo, esses números não se traduziram em redução da pobreza. Dados do Banco Mundial indicam que a proporção de domicílios abaixo da linha nacional de pobreza aumentou de 22,8% para 27,2% entre 2019 e 2023.
Moradores entrevistados pela BBC News Brasil, como o vendedor de sucata José Manuel, relatam que a maioria da população luta para sobreviver, com falta de empregos e aumento do custo de vida. A revitalização do centro de San Salvador, embora visível, é vista por alguns como uma “maquiagem” que não reflete a realidade da maioria.
O novo medo: a voz silenciada
Com a queda da violência, o questionamento sobre a manutenção do regime de exceção se intensifica. O artista plástico Melvin Gómez, que leciona para jovens em uma comunidade pobre, aponta que “o medo agora é outro: que as pessoas não possam alçar sua voz, seu direito de se manifestar, porque há um regime”.
Enquanto isso, a professora Adélia Rosales expressa esperança na continuidade do governo Bukele para consolidar a segurança. Ela reconhece a possibilidade de o país repetir a história de líderes populares que se tornam autoritários, mas afirma que a tranquilidade de viver sem o medo constante da violência compensa, para ela, as dificuldades econômicas atuais. A reportagem da BBC News Brasil, no entanto, ressalta que a concentração de poder e as restrições às liberdades civis geram apreensão em outros setores da sociedade salvadorenha e em observadores internacionais.
