Argentina devolve retrato valioso roubado por nazistas durante a Segunda Guerra Mundial a herdeira de negociante de arte judeu.
Um drama de décadas envolvendo arte roubada pelo regime nazista chega a um desfecho na Argentina. Um retrato italiano do século 18, dado como desaparecido por muitos anos, será finalmente devolvido à herdeira de seu legítimo proprietário, um renomado negociante de arte judeu holandês. A obra foi recuperada após uma descoberta inusitada e um complexo processo legal que culminou em um acordo.
A pintura, intitulada “Retrato de uma Dama”, estava em posse de Patricia Kadgien, filha de um oficial nazista de alta patente que fugiu para a Argentina após a Segunda Guerra Mundial. A localização da obra veio à tona por acaso, quando ela apareceu em uma fotografia de um anúncio imobiliário online. A descoberta desencadeou uma investigação que agora resulta na restituição da obra.
O acordo judicial alcançado evita um julgamento criminal para Kadgien e seu marido, que foram acusados de receptação qualificada. Em troca de renunciarem a qualquer reivindicação sobre a pintura e consentirem com sua devolução, eles evitarão o processo judicial e permanecerão sob supervisão por dois anos, com obrigações financeiras específicas. Conforme informações divulgadas pela Associated Press, o caso é mais um passo na longa jornada de recuperação de bens culturais pilhados pelo regime nazista.
O Inusitado Reaparecimento da Obra de Arte
A saga para recuperar o “Retrato de uma Dama” teve um reviravolta surpreendente. Repórteres holandeses, investigando a vida de Friedrich Kadgien, o oficial nazista foragido, identificaram a pintura em um anúncio imobiliário da casa de sua filha em Mar del Plata, Argentina. A obra estava pendurada sobre um sofá de veludo verde, em uma cena retratada para a venda do imóvel.
O anúncio desapareceu poucas horas após a publicação da reportagem. Embora buscas policiais na residência não tenham localizado a pintura inicialmente, o advogado de Kadgien acabou entregando a obra às autoridades dias depois. A descoberta acidental em um contexto tão prosaico chocou muitos envolvidos na longa busca pelo quadro.
Uma Coleção Pilhada e um Legado de Busca
O “Retrato de uma Dama” é atribuído ao artista italiano Giacomo Antonio Melchiorre Ceruti, embora tenha sido registrado como obra de Giuseppe Vittore Ghislandi nos inventários da coleção de Jacques Goudstikker. Goudstikker, um proeminente negociante de arte judeu holandês, teve sua vasta coleção saqueada por oficiais nazistas após a invasão da Holanda em 1940. Estima-se que cerca de 1.100 obras de sua coleção foram vendidas ilegalmente para Hermann Göring, o braço direito de Hitler.
Jacques Goudstikker morreu em um naufrágio enquanto fugia com sua família, no exato momento em que as forças alemãs invadiam os Países Baixos em maio de 1940. Sua filha, Marei von Saher, é a única herdeira sobrevivente e dedicou décadas a tentar recuperar as obras de arte de sua família. A pintura recuperada é avaliada em cerca de 250.000 euros (aproximadamente R$ 1,49 milhão).
O Papel do Oficial Nazista e a Recuperação de Bens
Friedrich Kadgien, o oficial nazista em questão, atuava como consultor financeiro de Göring, sendo responsável por lidar com moedas estrangeiras, metais preciosos e a venda de bens confiscados pelo regime. Após a derrota da Alemanha, ele fugiu para a Suíça e posteriormente se estabeleceu na Argentina, onde faleceu em 1978 sem ter sido preso ou acusado de crimes de guerra. Não está totalmente claro como o “Retrato de uma Dama” chegou às mãos de Kadgien.
Os advogados de Marei von Saher informaram que ela concordou em permitir que a pintura seja exibida na Argentina antes de ser transferida para ela. Durante as buscas em imóveis ligados a Kadgien e sua irmã em Mar del Plata, outras duas pinturas do século 19 e diversas gravuras também foram apreendidas pelas autoridades argentinas, que investigam a possível origem de saque de guerra dessas obras adicionais.
