A dívida do governo dos Estados Unidos superou a marca de US$ 40 trilhões, o equivalente a mais de R$ 200 trilhões, nos primeiros 19 meses do segundo mandato de Donald Trump. Este número colossal evidencia o imenso desafio fiscal que o presidente enfrenta, apesar de suas promessas de austeridade.
Donald Trump retornou à Casa Branca com um discurso focado na redução de gastos, diminuição do tamanho do governo e estímulo econômico para equilibrar as contas públicas. Contudo, a dívida nacional continuou sua trajetória ascendente, contrariando as expectativas iniciais.
A complexidade da situação fiscal americana não é um fenômeno recente, tampouco exclusivo do governo Trump. A dívida pública dos EUA tem crescido de forma contínua ao longo de décadas, impactada por fatores diversos como cortes de impostos, despesas com guerras, programas de estímulo econômico e, mais recentemente, o envelhecimento da população.
Conforme aponta o Comitê para um Orçamento Federal Responsável, as reduções de impostos implementadas durante o primeiro mandato de Trump adicionaram cerca de US$ 8,4 trilhões à dívida. Já no segundo mandato, uma nova legislação tributária e de imigração contribuiu com outros US$ 4,7 trilhões, segundo o Escritório de Orçamento do Congresso. Esse cenário, onde a diminuição de impostos não é acompanhada por cortes equivalentes em gastos, resulta inevitavelmente em um aumento da dívida, um dilema que se estende também ao contexto brasileiro.
A Dívida: Um Legado Histórico, Não Apenas de Trump
A escalada da dívida americana é um fenômeno que transcende a administração de um único presidente ou partido. Republicanos como Ronald Reagan e George W. Bush promoveram cortes de impostos que impactaram o déficit, enquanto as guerras durante o governo Bush elevaram os gastos. Por outro lado, democratas como Barack Obama e Joe Biden implementaram pacotes de estímulo fiscal em resposta a crises econômicas, como a de 2008 e a pandemia de Covid-19.
A exceção notável foi o governo de Bill Clinton, que em seu segundo mandato registrou superávits anuais modestos, impulsionados por um forte crescimento econômico e reformas em programas sociais, fruto de um acordo bipartidário. Essa análise histórica demonstra a dificuldade em atribuir a responsabilidade pela dívida a um único ator, pois republicanos e democratas, em diferentes momentos, optaram por aumentar gastos ou reduzir receitas governamentais.
O Impacto Demográfico no Orçamento Americano
Um fator crucial que pressiona as contas públicas, independentemente de quem ocupa a Casa Branca, é o envelhecimento da população. A geração baby boomer, ao se aposentar, aumenta a demanda por benefícios sociais, como a Previdência Social, enquanto a arrecadação de impostos sobre salários se mostra insuficiente para cobrir esses pagamentos futuros.
Essa dinâmica é similar à enfrentada por outros países com populações envelhecidas: um número crescente de beneficiários e uma base de trabalhadores contribuintes proporcionalmente menor. Historicamente, republicanos defendiam reformas nesses programas, mas Trump, ao criar novos programas de proteção social, como contas de investimento para recém-nascidos, afastou o partido dessa posição.
A Estratégia de Trump: Crescimento Econômico como Solução
A aposta de Donald Trump para lidar com a dívida baseia-se na premissa conservadora de que impostos menores e menos intervenção estatal estimulam o crescimento econômico. A teoria é que uma economia mais robusta geraria maior arrecadação, permitindo a redução do peso da dívida sem a necessidade de aumentar impostos ou cortar drasticamente programas sociais.
Trump chegou a afirmar que suas políticas poderiam impulsionar a produção econômica dos EUA em até 20% ao ano. No entanto, especialistas como Kevin Warsh, ex-chefe do Federal Reserve (Fed), alertam que o volume recorde de investimentos em áreas como inteligência artificial pode elevar as taxas de juros, aumentando o custo de financiamento para o governo.
Cortes de Gastos: Promessas vs. Realidade
Durante sua campanha, Trump prometeu que os cortes de impostos seriam acompanhados por reduções significativas nos gastos públicos. Para tal, chegou a nomear Elon Musk para liderar o Departamento de Eficiência Governamental, com a meta de economizar US$ 2 trilhões. A agência, no entanto, relatou uma economia de US$ 110 bilhões, um valor que, segundo o Escritório de Responsabilidade Governamental, baseou-se em alegações exageradas ou não verificáveis.
Maya MacGuineas, presidente do Comitê para um Orçamento Federal Responsável, ressalta que o problema não reside em reduzir impostos, mas em fazê-lo sem cortes proporcionais nos gastos. “É possível reduzir impostos, mas é preciso associar isso a cortes nos gastos, e isso não tem acontecido”, afirma.
Quem Paga a Conta da Dívida Americana?
Embora a dívida de US$ 40 trilhões possa parecer distante para o cidadão comum, seus efeitos já se manifestam no cotidiano. Juros mais altos encarecem financiamentos, como os imobiliários, e a inflação corrói o poder de compra quando os preços superam o aumento dos salários.
A pressão fiscal também ganha contornos políticos, especialmente em períodos eleitorais. A dívida ultrapassou US$ 40 trilhões às vésperas de eleições legislativas cruciais para o controle do Congresso. A situação americana reflete um dilema conhecido no Brasil: quando o governo gasta mais do que arrecada, a conta eventualmente precisa ser paga, seja por meio de aumento de receitas, corte de despesas ou convivência com uma dívida crescente e mais cara.
Autoridades e ex-integrantes do governo defendem que a Casa Branca não recebe o devido crédito pelos avanços econômicos e medidas para conter a inflação, que poderiam melhorar a situação fiscal. No entanto, William Emmons, ex-vice-presidente do Federal Reserve de St. Louis, tem uma visão diferente: Trump herdou um cenário fiscal desafiador, mas suas políticas o agravaram. “Ele piorou uma situação que já era ruim”, conclui.
