Forte Ross: O Extremo Sul do Império Russo na Califórnia
Uma viagem ao norte de São Francisco revela uma capela ortodoxa isolada e uma placa em alfabeto cirílico, marcando a presença de um império esquecido. Bem-vindo ao Forte Ross, o posto avançado que, por cerca de 30 anos, fez parte da Califórnia russa.
Milhões de turistas percorrem a deslumbrante Pacific Coast Highway, mas poucos imaginam que, escondido ali, existe um pedaço de terra administrado pela Rússia czarista. A maioria dos californianos desconhece essa parte de sua história, focando apenas nas influências espanhola e mexicana.
“Todos eles conhecem sobre os espanhóis e os mexicanos, mas quase ninguém sabe nada sobre os russos que estiveram aqui. É uma espécie de império esquecido”, afirma o antropólogo Kent Lightfoot, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Esta reportagem explora essa fascinante e pouco conhecida faceta da história americana, com base em informações divulgadas pelo BBC Travel.
Os Primórdios da América Russa: Da Sibéria à Califórnia
Enquanto potências europeias expandiam-se para o oeste, a Rússia avançava para o leste, estabelecendo assentamentos permanentes no Alasca a partir do século XVII. Em 1799, o czar Paulo I formalizou a reivindicação russa sobre o Alasca, fundando a Companhia Russo-Americana, com o objetivo de lucrar com o comércio de peles.
No entanto, os colonos russos no Alasca enfrentavam dificuldades para cultivar alimentos. A fome e o escorbuto assolavam a colônia, impulsionando a busca por um clima mais ameno e parceiros comerciais no sul.
Em 1806, Nikolai Rezanov, diretor da Companhia Russo-Americana, chegou a São Francisco em busca de suprimentos. Sua estadia e o romance com a filha do comandante espanhol inspiraram uma famosa ópera soviética e revelaram o potencial da Califórnia.
O Sonho da Califórnia: Um Celeiro Russo no Novo Mundo
Rezanov percebeu que o litoral norte da Califórnia era promissor e, em 1812, 25 russos e 80 caçadores nativos do Alasca fundaram o Forte Ross. O assentamento, construído com sequoias californianas, visava suprir as necessidades das colônias russas no Alasca.
O Forte Ross tornou-se um centro cosmopolita, com padeiros, banyas (saunas russas) e cerca de 60 construções. Era uma aldeia mercantil vibrante, onde diversas línguas eram faladas e pessoas de diferentes nações conviviam.
A colônia chegou a abrigar cerca de 400 pessoas nos anos 1830, tornando-se um dos locais mais diversificados da Califórnia. Caçadores das Aleutas e Kodiak viviam com mulheres nativas da Califórnia, e russos e crioulos europeus casavam-se com trabalhadores locais dos povos Kashaya Pomo e Miwok.
Inovação e Legado na Costa Oeste
O Forte Ross foi um centro industrial pioneiro na Califórnia. Ali foram construídos os primeiros navios do estado, fabricados os primeiros tijolos, vidros e moinhos de vento. Os russos comercializavam essas mercadorias com os espanhóis e, posteriormente, mexicanos, em troca de provisões para o Alasca.
Os russos também introduziram o cultivo de uvas na Califórnia em 1817, plantando a uva Mission no condado de Sonoma. Embora o Forte Ross nunca tenha atingido seus objetivos de lucro, seu legado agrícola e industrial é notável.
Em 1839, a Companhia da Baía de Hudson passou a fornecer suprimentos para o Alasca russo, diminuindo a importância do Forte Ross. Em 1841, John Sutter comprou o forte e suas construções, utilizando partes delas para seu próprio assentamento em Sacramento.
O Legado Russo na Califórnia Hoje
Vestígios do passado czarista ainda podem ser encontrados na Califórnia. O bairro Russian Hill, em São Francisco, recebeu esse nome em homenagem aos túmulos de marinheiros da Companhia Russo-Americana descobertos durante a Corrida do Ouro.
A baía de Bodega marca o ponto de partida dos russos para sua capital no Alasca, Novo-Arkhangelsk. O vale do rio Russo, chamado pelos russos de Slavyanka, atrai mais de um milhão de visitantes anualmente.
“O fato de que uma pequena parte da Rússia ficava aqui na Califórnia é fabuloso. Por que iríamos querer esquecer isso?”, questiona Robin Joy Wellman, que trabalhou como intérprete nos Parques Estaduais da Califórnia por quase 30 anos. O Forte Ross continua a celebrar sua história com festivais anuais e missas ortodoxas, mantendo viva a memória deste império esquecido.
