EUA em Primeiro Lugar: Como Trump Troca Diplomacia por Aliados Políticos e Tenciona a Relação com o Brasil
A atual crise entre Brasil e Estados Unidos, marcada pela revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, reflete um contexto mais amplo de transformações na diplomacia americana sob a gestão de Donald Trump.
Desde o início de seu segundo mandato, o presidente republicano tem implementado uma política externa descrita como “transacional”, focada em maximizar ganhos imediatos para os EUA, o que tem gerado atritos com aliados históricos e afetado a relação bilateral com o Brasil.
Analistas apontam que essa abordagem se manifesta em guerras tarifárias e tentativas de influenciar assuntos internos de outros países. Conforme informações da American Foreign Service Association (AFSA), há um afastamento em larga escala de diplomatas de carreira, prejudicando a experiência e o conhecimento acumulados, conforme divulgou a BBC News Brasil.
Mudanças Profundas no Departamento de Estado
O Departamento de Estado americano, responsável pelas relações internacionais, tem passado por uma reestruturação significativa. A AFSA calcula que cerca de 3 mil diplomatas de carreira, de um total de 14 mil, deixaram o órgão nos últimos 18 meses, seja por demissão, aposentadoria ou pressão.
Um representante da AFSA, falando em reserva, destacou à BBC News Brasil que a saída desses profissionais, com décadas de experiência e domínio de idiomas, representa uma perda considerável para o país a longo prazo. O porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, justificou as medidas como parte de uma “reestruturação histórica” para viabilizar uma diplomacia mais “eficiente, ágil e assertiva”, alinhada ao lema “America First”.
Indicações Políticas e Tensão com o Brasil
A AFSA aponta para uma tentativa de politizar o serviço diplomático, com um percentual historicamente baixo de diplomatas de carreira sendo nomeados para postos de embaixador. Dados até 10 de agosto indicam que apenas 20 dos 113 nomeados por Trump são diplomatas de carreira, contrastando com a média de cerca de 60% em governos anteriores.
Essa política de indicações políticas, embora não seja nova, tem se intensificado, gerando um número elevado de postos de embaixador vagos, 97 dos 196, segundo a AFSA. A crise com o Brasil se agrava com a demora na concessão do “agrément”, aval do governo brasileiro para o indicado americano Daniel Perez, deputado estadual da Flórida, para chefiar a Embaixada no Brasil.
A revogação do visto da embaixadora brasileira foi motivada pela insatisfação americana com a demora na aprovação de Perez e pela recusa de vistos a dois funcionários do Departamento de Estado, que, segundo o Planalto, “planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro”.
Escalada de Medidas Hostis e Desconfiança Diplomática
O Planalto repudiou a decisão americana, classificando-a como “parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas”. O governo brasileiro também mencionou a imposição de tarifas e sanções sobre autoridades, incluindo o cancelamento de vistos, como parte dessa disputa.
Diplomatas estrangeiros em Washington relatam dificuldade em identificar com quem dialogar e a necessidade de cultivar relacionamentos com pessoas com acesso direto ao presidente Trump. Essa nova dinâmica dificulta a compreensão se as decisões refletem uma política de Estado ou a determinação de um pequeno grupo, conforme observado pelo diplomata aposentado Ricardo Zúñiga.
Lealdade ao Presidente Acima da Experiência
A reestruturação no Departamento de Estado também envolve a dissolução de unidades e o fim de agendas ligadas à diversidade e inclusão, vistas como “ideologicamente extremistas”. O processo de seleção e avaliação de funcionários tem, na visão de alguns diplomatas, um componente político maior.
Desde seu primeiro mandato, Trump demonstrou desconfiança em relação ao Departamento de Estado, visto como um reduto liberal. Profissionais de carreira que deixam o órgão são, em alguns casos, substituídos por indivíduos “sem experiência, mas com muita lealdade ao presidente”, segundo observadores. O porta-voz Tommy Pigott afirmou que “o que não será tolerado é que pessoas usem seus cargos para minar ativamente os objetivos do presidente devidamente eleito”.
