Pacto Secreto EUA-El Salvador: Migrantes Desaparecem em Prisão de Segurança Máxima após Acordo Trump-Bukele

BRASIL

Investigação revela acordo sombrio entre governos e o sumiço de cidadãos em El Salvador.

Uma investigação coordenada pelo Forbidden Stories, com participação da RFI e outros 23 veículos de comunicação, expõe um acordo secreto entre os governos de Donald Trump e Nayib Bukele que teria levado ao desaparecimento de migrantes salvadorenhos após expulsão dos Estados Unidos. As famílias de pelo menos 11 desses indivíduos agora lutam por respostas, temendo o pior.

O caso levanta sérias preocupações sobre violações de direitos humanos e desaparecimentos forçados, com relatos chocantes de tratamentos desumanos e falta de transparência por parte das autoridades. A situação se agrava pelo contexto do regime de exceção em El Salvador, que restringe liberdades e o acesso à informação.

A busca por justiça e verdade se intensifica à medida que as famílias, movidas pela incerteza e pelo medo, exigem que seus entes queridos sejam encontrados e que os responsáveis sejam responsabilizados. A atuação dos governos de ambos os países sob suspeita de conluio em práticas ilegais é o foco central da investigação.

O Pacto Migratório e as Expulsões em Massa

O acordo migratório secreto entre os Estados Unidos e El Salvador, firmado em 2025, permitiu a expulsão de centenas de migrantes. Entre eles, estavam 252 venezuelanos e um número indeterminado de salvadorenhos, acusados pelos dois governos de serem criminosos perigosos. A partir de março e abril de 2025, após chegarem a San Salvador em voos militares fretados pelo governo Trump, o rastro de indivíduos como Elmer Concepciòn Romero Yanes e Kevin Rolando Barrera Torres se perdeu.

A falta de informações oficiais sobre os salvadorenhos expulsos contrasta com o caso dos venezuelanos. A Human Rights Watch (HRW) aponta que as informações sobre os salvadorenhos vieram à tona por meio de notas da Casa Branca, tuítes e reportagens, e não por canais oficiais transparentes. Famílias como a de Glenda e Karen tiveram que usar vídeos e informações fragmentadas para confirmar a chegada de seus parentes ao país.

O Desaparecimento Forçado e a Prisão de Segurança Máxima

Segundo a ONU, desaparecimento forçado ocorre quando um Estado priva alguém de sua liberdade e se recusa a reconhecer o fato ou oculta o destino da pessoa. Este é o temor das famílias dos migrantes salvadorenhos. Os expulsos foram levados ao Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), uma prisão de segurança máxima, descrita por um diretor como “bem-vindos ao inferno”.

Organizações como a Cristosal e a HRW relatam que os detidos no Cecot foram submetidos a torturas físicas, psicológicas e sexuais. O Estado salvadorenho se recusou a fornecer informações sobre eles, inclusive às suas famílias, configurando o que o direito internacional define como desaparecimento forçado. A falta de acesso a juízes ou tribunais e a ausência de procedimentos judiciais agravam a situação.

A Busca por Respostas e as Acusações de Detenção Arbitrária

Após meses de silêncio, o governo de El Salvador reconheceu, em junho de 2026, que Elmer Concepciòn Romero Yanes estava detido em Santa Ana. No entanto, a fundamentação jurídica para sua prisão permanece obscura, levando os advogados a classificarem a detenção como arbitrária. A falta de acesso aos processos e a ausência de informações sobre as acusações aumentam a angústia das famílias.

A situação de Kevin Rolando Barrera Torres e de outros 36 salvadorenhos expulsos é ainda mais incerta. Embora alguns tenham sido localizados em prisões, 11 deles, incluindo Kevin, permanecem desaparecidos. O advogado Kelvi Zambrano enfatiza que o crime de desaparecimento forçado, que começa nos EUA e continua em El Salvador, não prescreve e que as famílias buscam condenação do Estado salvadorenho.

O Papel dos Estados Unidos e o Clima de Medo

A prática dos Estados Unidos de retirar pessoas expulsas de seus bancos de dados dificulta o rastreamento, segundo a HRW. A falta de comunicação sobre o paradeiro dos indivíduos, mesmo após a transferência para El Salvador, viola obrigações internacionais. Em El Salvador, o regime de exceção restringe o acesso à informação, criando um clima de medo que impede as famílias de buscar ajuda abertamente. Advogados relutam em assumir esses casos por receio de represálias.

Apesar das melhorias nos indicadores de segurança em El Salvador sob o regime de exceção, há um aumento de prisões arbitrárias. A HRW documentou centenas de detenções de pessoas sem vínculo com gangues, e relatos de policiais indicam pressões para atingir cotas de prisões. A situação de Elmer e Kevin, ambos com histórico de perseguição policial em El Salvador, levanta sérias dúvidas sobre a legalidade de suas expulsões e detenções, especialmente considerando o princípio da não-devolução do direito internacional.

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