Terceira Guerra Mundial? Analistas alertam para escalada global de conflitos conectando Ucrânia e Oriente Médio

BRASIL

A percepção de uma Terceira Guerra Mundial se intensifica com a interconexão de conflitos regionais, envolvendo potências globais e reacendendo debates entre especialistas em segurança internacional.

O que antes poderiam ser vistos como episódios isolados de guerras regionais, como o afundamento de um navio iraniano por drones ucranianos ou o envio de soldados norte-coreanos para a linha de frente russa, agora são interpretados por muitos como peças de um mesmo tabuleiro global.

Essa sensação de que o mundo está à beira de uma guerra mundial, ou já imerso nela, deixou de ser apenas uma provocação acadêmica e se tornou um tema corrente entre analistas, colunistas e formuladores de política externa. A convergência de eventos na Ucrânia e no Oriente Médio reforça essa percepção.

Conforme informação divulgada pela BBC News Brasil, essa percepção de que os conflitos da Ucrânia e do Irã pararam de correr em paralelo e passaram a se tocar diretamente ganhou corpo nas últimas semanas. Encontros diplomáticos recentes, como os do presidente americano com líderes ucraniano e israelense, ajudaram a reavivar essa sensação ao reunir em Washington os líderes de nações envolvidas em teatros de guerra distintos, mas com conexões emergentes.

O Conceito de Guerra Mundial em Novos Termos

O professor de Relações Internacionais e Ciência Política da Universidade de Chicago, Paul Poast, um dos pioneiros a dar substância a essa ideia, define a configuração atual como uma guerra mundial com base em dois elementos cruciais: a existência de duas grandes guerras simultâneas em continentes diferentes e o envolvimento direto de grandes potências, cada uma apoiando o adversário da outra no conflito oposto. Ele ressalta que os EUA equipam e treinam a Ucrânia, enquanto a Rússia fornece armamentos e inteligência ao Irã.

Poast reconhece que a escala da devastação atual não se compara às duas guerras mundiais do século XX, mas sugere um paralelo histórico mais apropriado: a Guerra dos Sete Anos, no século XVIII, que também envolveu múltiplas potências em diversos teatros sem atingir o mesmo patamar de destruição. Ele considera essa analogia mais adequada para entender o conceito de guerra mundial em um contexto moderno.

Em maio, Poast já apontava a China como o fator mais imprevisível, alertando sobre o risco de Pequim ver o desgaste americano na Ucrânia e no Irã como uma oportunidade para agir sobre Taiwan. Sua avaliação atualizada à BBC News Brasil em novembro indica que a ideia de que vivemos uma guerra mundial, antes provocativa, hoje é vista como plausível e amplamente aceita, com os conflitos atraindo mais países e sem sinais de fim iminente.

A Sobreposição de Conflitos e o ‘Eixo dos Adversários’

Gideon Rachman, comentarista-chefe de política externa do Financial Times, também abordou o fenômeno em um artigo recente, observando que os conflitos na Europa, Oriente Médio e Ásia, embora ainda distintos, começam a se sobrepor. Ele destaca que, assim como nas guerras mundiais anteriores, há alianças identificáveis e um conflito que envolve as maiores potências, com influência sobre conflitos na África.

Rachman cita Thomas Wright, ex-diretor sênior de planejamento estratégico da Casa Branca, para quem a China tem sido fundamental na reconstrução da capacidade militar russa, fornecendo tecnologia crucial e cooperando na produção de drones. A postura de Donald Trump em relação a aliados dos EUA e o crescente isolamento de Israel complicam a formação de um bloco unificado de resposta a esse emergente “eixo dos adversários”, ou “eixo da desordem”, como estrategistas americanos o batizaram.

A combinação de conflitos regionais e potenciais erros de cálculo entre grandes potências é vista como uma fórmula perigosa. A aproximação entre Rússia, China, Irã e Coreia do Norte, embora sem uma aliança formal, gera preocupação sobre a estabilidade global.

Perspectivas Cautelosas e Diagnósticos Alarmantes

Nem todos os analistas compartilham da mesma urgência. O historiador britânico Niall Ferguson, do Hoover Institution, prefere o termo “Guerra Fria 2” a Terceira Guerra Mundial. Ele observa que conflitos como o do Irã podem ser pioneiros em uma “primeira guerra de IA”, com uso intensivo de drones e inteligência artificial na seleção de alvos.

Ferguson também alerta que o movimento americano no Golfo Pérsico pode abrir janelas estratégicas para China e Rússia explorarem outros pontos de estrangulamento globais, como o Estreito de Taiwan. Por outro lado, o economista Jeffrey Sachs, da Universidade Columbia, foi taxativo em março, afirmando que “provavelmente estamos nos primeiros dias da Terceira Guerra Mundial” e listando combates em todo o mundo, da Ucrânia ao Oriente Médio e Paquistão, como sintomas de um mesmo fenômeno interligado.

Sachs atribui o cenário a uma “busca delirante de hegemonia global” por parte dos Estados Unidos. Outros, como Andrea Kendall-Taylor do CNAS, preferem o termo “eixo da desordem” para descrever a cooperação entre Rússia, China, Irã e Coreia do Norte, sem uma aliança formal. Fiona Hill, do Brookings Institution, chama a atenção para o esgotamento dos arsenais de EUA e Rússia, o que fragiliza a confiabilidade de ambos como fiadores de segurança.

Um Cenário em Constante Evolução

Nenhum dos conflitos atuais dá sinais de um fim próximo. A cada semana, cresce a possibilidade de novos países serem arrastados para esses teatros de guerra, seja pela ação da Coreia do Norte, da China, ou de qualquer outra nação que perceba uma oportunidade de ganho. Esse cenário complexo e interconectado gera preocupação crescente em escala global.

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