A Era da Mensuração: Vantagens e Perigos de Viver Por Dados
Em uma sociedade cada vez mais conectada, monitorar aspectos da vida virou um hábito comum. De passos e calorias a qualidade do sono e produtividade, dispositivos e aplicativos prometem organização e otimização pessoal. Quase 70% dos brasileiros, segundo um relatório da consultoria PwC, utilizam pelo menos um app de saúde ou vestível.
Especialistas em psicologia, sono e tecnologia apontam que esses dados podem ser valiosos para identificar padrões, embasar mudanças de hábito e até revelar problemas de saúde. Contudo, o alerta é claro: a tecnologia pode começar a ditar nosso comportamento quando os números ganham mais peso do que o que sentimos.
A experiência de monitorar a vida com dados é vasta e complexa. Entender quando a tecnologia ajuda e quando ela começa a mandar é fundamental. A seguir, exploramos como os números podem ser aliados poderosos, mas também como podem se tornar tiranos invisíveis. A informação é do UOL.
Quando os Dados São Aliados Valiosos
Para Felipe Collins, diretor de marketing, o monitoramento detalhado de sua saúde, devido a uma condição rara de hipopituitarismo, tornou-se essencial. Ele registra sono, medicamentos e rotina em notas de voz, organizadas com inteligência artificial. Esses dados, compartilhados com sua terapeuta, facilitam as sessões e permitem identificar padrões.
Ao cruzar informações, Felipe percebeu, por exemplo, que dormir após as 0h30 afetava seu cansaço nos dias seguintes e que períodos de baixa energia coincidiam com alterações na dose de seus hormônios. “Percebi que se eu juntar essas fontes de dados, consigo ter uma visão melhor de mim mesmo”, explica.
O jornalista Magno Nunes usa o registro de shows assistidos desde 2009 como um incentivo para ver mais apresentações. Essa prática ampliou seu repertório musical, levando-o a descobrir mais artistas independentes e fora de sua zona de conforto. “Acabou virando uma competição comigo mesmo, mas também uma forma de me relacionar com os outros”, admite.
O Risco de Viver Pelos Números: A Ortossonia
O perigo surge quando a busca por metas numéricas leva à alteração excessiva da rotina, gerando frustração. Um exemplo é a ortossonia, a preocupação exagerada em atingir métricas de sono consideradas ideais por aplicativos. Estudos apontam que esse monitoramento pode aumentar a ansiedade em relação ao descanso.
Pedro Frisanco, analista de dados, vivenciou essa situação ao monitorar seu sono por 11 meses com um smartwatch. Ele se preocupava mais com a pontuação recebida ao acordar do que com a qualidade do sono em si. “Eu ia para a cama pensando na nota que receberia ao acordar, não em dormir bem”, lembra.
Essa obsessão transformou o monitoramento em fonte de ansiedade. “De repente virou motivo de ansiedade, de infelicidade. Acabei criando um problema que nunca existiu”, relata Pedro, que parou de usar o smartwatch completamente.
Gamificação e a Armadilha da Competição
A gamificação, uso de elementos de jogos em contextos não lúdicos, pode transformar treinos e atividades em uma competição constante. Elementos como desafios, recompensas e níveis estimulam comportamentos, mas também podem levar à frustração quando metas não são atingidas.
Paula Zanchetta, 34, seguiu uma rotina regrada de exercícios por dois anos. A frustração vinha quando não conseguia cumprir as atividades ou quando via notas baixas de sono e “body battery” no seu smartwatch. “O que a deixava mais chateada desde a hora em que acordava era ver a nota de sono e o ‘body battery’ baixos”, conta.
Ela chegou a evitar sair à noite para não prejudicar o sono. Com terapia, percebeu que o acompanhamento excessivo não trazia benefícios reais e passou a usar o smartwatch apenas para os treinos.
Encontrando o Equilíbrio: Ferramenta, Não Senhora
A maioria dos usuários encontra um meio-termo, utilizando a tecnologia como uma ferramenta, não como uma regra. Cacau Prado, publicitária, deixou de usar todas as funções do smartwatch e se concentrou naquelas que fazem sentido para ela. “No começo, você quer fazer valer o preço que pagou. Mas, com o tempo, começa a usar somente aquelas que fazem sentido. É uma ferramenta, não preciso ficar presa a ela”, diz.
O smartwatch ajudou Cacau a identificar picos de estresse em situações específicas, mostrando que a tecnologia pode, sim, auxiliar na autopercepção. “O relógio me ajudou a perceber que realmente existia um pico de estresse.”
Tiago Pereira, educador físico e biohacker, defende que medir não significa obedecer aos números, o que ele chama de “vaidade biomédica”. “Não devemos ser escravos da ferramenta”, afirma, lembrando que a autopercepção é igualmente importante. “A pessoa pode se avaliar, perceber como está se sentindo no dia, como está o humor, como as coisas a afetam, o que é possível melhorar, e depois disso partir para outros aspectos.”
A experiência de Mariana Vicente, que iniciou a reportagem, a fez refletir sobre o “solucionismo tecnológico”, conceito que questiona a ideia de que problemas complexos podem ser resolvidos apenas por aplicativos e dados. Ela conclui que a tecnologia é uma ajuda, mas jamais um fim em si mesma, especialmente quando apresentada como uma solução mágica para questões profundas.
