Silêncio de Trump sobre vitória de Lula: O que o gesto diz sobre a relação Brasil-EUA e o futuro político?

BRASIL

Trump rompe tradição de mais de duas décadas ao não reconhecer vitória de Lula, gerando especulações sobre a relação Brasil-EUA.

A ausência de um pronunciamento oficial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais brasileiras quebra uma tradição de mais de vinte anos. Diferente de pleitos anteriores, a Casa Branca manteve o silêncio até a manhã desta segunda-feira (26/10), enquanto líderes de diversas nações já haviam parabenizado o petista.

O resultado oficial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com Lula alcançando 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Jair Bolsonaro, esperava o reconhecimento formal dos EUA. A demora de Trump, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, pode indicar uma “frustração política” e um momento de “digestão” de uma derrota para um aliado.

Essa postura rompe com o padrão observado em 2002, 2014, 2018 e 2022, quando Washington reconheceu rapidamente o vencedor. Em 2022, Joe Biden parabenizou Lula antes mesmo de Bolsonaro admitir a derrota, e em 2018, Trump ligou para Bolsonaro na noite do segundo turno. A falta de um contato imediato de Trump levanta questões sobre o futuro alinhamento regional que ele esperava com o Brasil.

A tradição rompida e as análises de especialistas

Christopher Sabatini, pesquisador sênior para América Latina do Chatham House, destacou a importância do silêncio de Trump, afirmando que ele “deveria ter sido o primeiro” a parabenizar. Sabatini sugere que a demora pode ser uma tática para “encurralar” o presidente americano, enquanto outros países correm para reconhecer o resultado.

Para Sabatini, o silêncio também reflete uma “frustração política” de Trump, que endossou a chapa Bolsonaro, inclusive com a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas um dia após encontro com os filhos de Bolsonaro na Casa Branca. O pesquisador aponta que Trump se gabava de ter levado nove presidentes ao poder na América Latina e via o Brasil como seu “décimo e maior prêmio”.

Expectativas frustradas e a estratégia de Trump na América Latina

Anthony Pereira, diretor executivo do Centro para Estudos Latino-Americanos da Universidade Tulane, indica que Washington esperava que o Brasil se alinhasse à agenda de Trump, aderindo ao Escudo das Américas e negociando mineração crítica. O fato de o Brasil ter ficado de fora dessa coalizão de segurança lançada por Trump em março é visto como uma “decepção para o governo”.

Pereira também aponta efeitos indiretos na política americana, às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato. A derrota de Bolsonaro, um aliado de Trump, “pode contribuir para uma derrota provável na Câmara para o Partido Republicano”. A estratégia de Trump, que não teve “100% de sucesso”, pode impactar o desempenho republicano.

O pragmatismo de Lula e o futuro da relação Brasil-EUA

Em seu discurso de vitória, Lula enfatizou a necessidade de uma política externa independente, afirmando que o Brasil “não aceita ser quintal de ninguém” e que a relação com os EUA não deveria ser diferente da relação com outros países. A menção a “intromissão vinda de fora para dentro” e a comparação com a “Rússia, a China ou os Estados Unidos” indicam uma postura de autonomia.

Apesar das divergências, Pereira acredita no pragmatismo de Trump e na tendência de negociação com o governo Lula, devido aos interesses econômicos e negócios em comum entre Brasil e EUA. Empresas como a JBS, com forte presença em ambos os países, não teriam interesse em um conflito aberto, o que “vai ter vozes nos dois países tentando acalmar os ânimos”.

O peso do reconhecimento de Trump no cenário político brasileiro

Especialistas avaliam que um eventual gesto de reconhecimento por parte de Trump teria um peso significativo para o campo bolsonarista. Sabatini aponta que, se Trump reconhecer o resultado, “Flávio [Bolsonaro] terá de recuar”, pois qualquer contestaçãoseria menos provável sem o apoio da Casa Branca.

A vitória de Lula também pode favorecer o acordo Mercosul-União Europeia, que um governo Bolsonaro “provavelmente teria torpedeado”. Na América Latina, Lula poderá buscar um reposicionamento do Brasil como ator de equilíbrio, atuando entre o Sul Global, a Casa Branca e a Europa, mesmo com a ressalva de que governos de direita “não são todos iguais” e que pode haver convergência com alguns líderes conservadores.

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