Geógrafo brasileiro revela o “fim do mundo” do Irã: Estreito de Ormuz, um ponto estratégico e inóspito

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Geógrafo brasileiro revela o “fim do mundo” do Irã: Estreito de Ormuz, um ponto estratégico e inóspito

Jorge Mortean, geógrafo com vivência de três anos em Teerã, oferece uma perspectiva única sobre o Irã e o Estreito de Ormuz. Sua experiência o permite descrever a região não apenas como um ponto nevrálgico nas tensões geopolíticas atuais, mas também como um local remoto e de difícil acesso para a maioria dos iranianos.

Durante sua estadia no país, entre 2009 e 2012, Mortean teve a oportunidade de explorar diversas partes do Irã, incluindo o litoral do Golfo Pérsico. Essa imersão cultural e geográfica permitiu ao acadêmico acumular um conhecimento profundo sobre a região, que contrasta com a visão frequentemente limitada apresentada pelas notícias internacionais.

Ele relata que, para muitos iranianos, o Estreito de Ormuz, apesar de sua importância estratégica global, é visto como uma área distante e inóspita. Essa percepção local revela uma faceta menos conhecida do país, marcada por paisagens e realidades distintas das grandes cidades.

A inesperada jornada para o Irã

A trajetória de Jorge Mortean para o Irã foi tão surpreendente quanto sua posterior exploração do país. Em 2009, enquanto trabalhava em São Paulo, recebeu um contato da embaixada iraniana em Brasília com uma proposta irrecusável: uma bolsa integral para um mestrado na Academia Diplomática Iraniana, em Teerã.

Com apenas 15 dias para organizar sua vida, Mortean precisou providenciar passaporte, pedir demissão e se preparar para uma mudança que o levaria a viver no país asiático por três anos. Aos 27 anos, com pouca experiência internacional, ele se viu embarcando em uma aventura acadêmica e pessoal sem precedentes.

Explorando o Golfo Pérsico: entre a paisagem e a geopolítica

Mortean percorreu extensivamente o litoral do Golfo Pérsico, incluindo as províncias iranianas de Khuzestão, Bushehr e Ormuzgão, além de visitar Catar, Emirados Árabes e Omã na margem sul. Ele destaca a marcante diferença climática entre as regiões, com a possibilidade de nevascas em Teerã enquanto o Golfo Pérsico registra temperaturas de 30°C.

O geógrafo também chama a atenção para a pouca profundidade do Golfo Pérsico, descrevendo-o como um “grande piscinão”, com uma profundidade média de apenas 70 metros. Em contraste, o Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, apresenta pontos com até 200 metros de profundidade.

O Estreito de Ormuz: “o fim do mundo” iraniano

Apesar de ser um ponto crucial para o escoamento de 20% da produção petrolífera mundial e um ativo estratégico para o regime iraniano, o Estreito de Ormuz é visto por muitos iranianos como uma área remota. Mortean relata a surpresa de seus colegas em Teerã quando ele mencionou que iria para Ormuz, com a pergunta: “O que você vai fazer lá? É o fim do mundo do Irã”.

A visita de Mortean à região teve um caráter cultural, com foco nas fortalezas construídas pelos portugueses nas ilhas de Ormuz e Qeshm. A jornada, descrita como exaustiva, envolveu voo, travessia de barco e percurso terrestre em um ambiente árido, sem árvores e com escassez de água potável.

Um legado português no Estreito de Ormuz

Nas ilhas de Ormuz e Qeshm, Mortean explorou fortalezas que guardam vestígios da presença portuguesa. Ele descreve a surpresa ao descobrir, dentro das muralhas, casamatas e cômodos escavados nas rochas para proteção contra o calor extremo, que pode ultrapassar 50°C no verão.

Um momento particularmente marcante para o geógrafo foi a descoberta de uma pequena capela incrustada na pedra, onde estavam escritas em português arcaico orações como a Via Crúcis, a Ave Maria e o Pai Nosso. Essa experiência o fez refletir profundamente sobre o legado do imperialismo e da colonização portuguesa.

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