Vierzon, França, ignora Dia Nacional da Abolição da Escravidão e gera polêmica
A cidade francesa de Vierzon, agora sob o comando de uma aliança de extrema direita, tomou uma decisão controversa ao cancelar as celebrações do Dia Nacional da Abolição da Escravidão, comemorado em 10 de maio. A prefeitura justificou a medida citando a necessidade de economia orçamentária e a suposta falta de interesse da população local.
No entanto, a oposição política e organizações de direitos civis veem a ação sob outra perspectiva, acusando o novo prefeito de ceder a pressões de setores mais conservadores e racistas de seu eleitorado. A data, embora não marque a abolição em si, é um reconhecimento simbólico e legal da escravidão pela República Francesa desde 2006.
O cancelamento gerou forte repercussão, com críticos argumentando que a medida apaga um capítulo importante da história e desrespeita um dever republicano de memória. A cidade, que antes era governada pela esquerda, agora enfrenta um debate acalorado sobre identidade e história, conforme informações divulgadas pela imprensa francesa.
Justificativas da Prefeitura e Críticas da Oposição
O vice-prefeito de Vierzon, Yves Husté, apresentou a situação financeira da cidade como principal motivo para o cancelamento. Ele mencionou uma dívida de 32 milhões de euros e 2,5 milhões em contas não pagas, argumentando que o custo de 1.500 euros para a cerimônia não seria justificável no atual cenário. Husté também afirmou que “ninguém comparecia” às celebrações anteriores, atribuindo o baixo interesse a um suposto distanciamento do evento com a realidade presente.
Em contrapartida, o deputado comunista e ex-prefeito de Vierzon, Nicolas Sansu, denunciou a decisão nas redes sociais. Sansu, que instituiu a comemoração na cidade durante seu mandato, declarou que o cancelamento “não é nem um esquecimento, nem uma vontade de economizar, mas sim a vontade de agradar as alas mais racistas do eleitorado de extrema direita”. Apesar da posição oficial da prefeitura, Sansu organizou uma cerimônia informal para marcar a data.
Repercussão de Organizações de Direitos Civis
O Conselho Representativo das Associações Negras da França (Cran) classificou a decisão da nova gestão como “um ato político de uma violência simbólica inaceitável”. O presidente do Cran, Haidari Nassurdine, enfatizou que “apagar um dia nacional dedicado à memória do tráfico negreiro, da escravidão e de suas abolições equivale a atacar frontalmente um dever republicano fundamental: o de reconhecer os crimes contra a humanidade que moldaram a nossa história”.
Contexto Político e Histórico
A eleição municipal de março marcou uma virada política em Vierzon, com a vitória de uma lista de união da extrema direita. A cidade, que era governada pela esquerda desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e pelo Partido Comunista desde 2008, agora tem como prefeito Yannick Le Roux, policial de 50 anos, apoiado por membros do partido Reunião Nacional, de Marine Le Pen. Historicamente, a escravidão foi abolida pela primeira vez na França em 1794, revogada por Napoleão, e depois definitivamente em 27 de abril de 1848.
