A Explosive Media e a Nova Propaganda de Guerra no TikTok
Animações em estilo Lego, com bombas, líderes mundiais como bonecos e cenas de ataques militares, inundam as redes sociais desde o início do conflito entre Irã, Israel e Estados Unidos. Essas produções, muitas vezes impulsionadas por inteligência artificial, representam uma estratégia de propaganda política cada vez mais sofisticada, projetada para o ambiente digital.
As animações retratam drones, explosões e confrontos, com autoridades americanas frequentemente mostradas como responsáveis pela destruição, enquanto o Irã e seus aliados são apresentados como força de resistência. Especialistas apontam que esse formato utiliza uma linguagem simples, humor e uma estética leve para maximizar o alcance e a facilidade de compartilhamento, ao mesmo tempo que pode suavizar e banalizar a violência retratada.
Uma das principais organizações por trás desses vídeos é a **Explosive Media**. Em declarações à BBC, um representante, que se identifica como “Sr. Explosivo”, admitiu que o governo do Irã é um “cliente” do grupo, após negar vínculos anteriormente. A equipe é composta por cerca de dez pessoas, incluindo operadores de IA, pesquisadores e animadores, e o projeto se sustenta com doações públicas e contratos. Conforme apurado pelo g1, o YouTube já suspendeu o canal da organização por violações de políticas da plataforma.
O Poder da Estética Lego na Propaganda
A escolha da estética inspirada em Lego pela Explosive Media é estratégica. Segundo o representante da organização, o formato ajuda a **suavizar a violência da guerra**, evitando a rejeição do público. Maurício Ramos, cientista político e professor da FESPSP, concorda, afirmando que é uma comunicação voltada para o ocidente e que o Lego é um brinquedo universal, capaz de atingir todas as faixas etárias.
O objetivo principal, segundo especialistas, é o **engajamento e o compartilhamento**. Ao contrário da propaganda tradicional focada no medo, as animações buscam criar conexão através de conteúdos leves e fáceis de consumir. Quando as pessoas compartilham, mesmo sem concordar, elas ajudam a multiplicar o discurso, tornando-o parte do senso coletivo.
Banalização da Violência e Viralização como Meta
A psicanalista Fabíola Barbosa destaca que essa busca pela viralização **trivializa o tema da guerra**. Ela ressalta a preocupação em como temas problemáticos são diluídos em uma estética aparentemente inocente, mascarando conteúdos violentos consumidos como entretenimento. A estética Lego, segundo ela, serve para normalizar imagens que seriam chocantes em filmagens reais e bloqueadas pelas plataformas, parecendo “inofensivas e engraçadas”.
O potencial de viralização com o uso de inteligência artificial, segundo a psicanalista, assemelha-se a outras narrativas que ganharam repercussão, como os vídeos de “novelas de frutas”. O uso indiscriminado de IA para criar roteiros e histórias, sem uma autoria clara, permite a disseminação de conteúdos que podem reproduzir violência ou discursos preconceituosos, como visto em outros exemplos virais.
Do TikTok aos Festivais: O Alcance da Propaganda
O sucesso na viralização e na inserção da guerra nas discussões cotidianas é inegável. A fama dessas animações chegou a um dos maiores festivais de música do mundo, o Coachella. Em 18 de abril, o vocalista da banda The Strokes, Julian Casablancas, mencionou a propaganda de guerra em estilo Lego durante uma apresentação, elogiando a qualidade dos vídeos e questionando as derrubadas de conteúdo por parte das plataformas ou do governo.
A estratégia de usar vídeos de IA com estéticas leves, como a do Lego, para disseminar propaganda de guerra tem se mostrado **altamente eficaz** em capturar a atenção do público online. A capacidade de simplificar temas complexos e a viralização facilitada pelas redes sociais tornam essa forma de comunicação uma ferramenta poderosa no cenário geopolítico atual.
