Canadá Intensifica Recrutamento Militar em Resposta a Tensões Globais e Investimentos Históricos em Defesa
O Canadá está testemunhando o maior aumento no recrutamento militar em três décadas, marcando uma reviravolta significativa após anos de defasagem em suas capacidades de defesa. Este movimento ocorre em um cenário global de crescentes conflitos armados e incertezas geopolíticas.
Por muitos anos, o país foi visto como um player com recursos limitados na área de defesa. A situação era tão crítica que, há apenas dois anos, um ex-ministro da Defesa alertou sobre uma “espiral da morte” nas Forças Armadas devido à baixa quantidade de recrutas.
Agora, o Exército canadense está expandindo em um ritmo sem precedentes, buscando reverter a crônica escassez de pessoal. Essa mudança coincide com um notável aumento do nacionalismo e com o compromisso do país em investir bilhões em defesa, cumprindo antigas obrigações com a OTAN. Conforme informação divulgada pela BBC, o Canadá atingiu pela primeira vez desde o final dos anos 1980 a meta da OTAN de gastar 2% do seu PIB em defesa.
Fatores que Impulsionam o Crescimento Militar Canadense
O aumento no alistamento militar, que começou a crescer em 2022, acompanha a invasão da Ucrânia pela Rússia e o “efeito Trump”, com declarações do presidente dos EUA sobre a soberania canadense. Charlotte Duval-Lantoine, pesquisadora do Instituto Canadense de Assuntos Globais, aponta que, embora o “efeito Trump” possa ter influenciado, a alta já vinha ocorrendo.
A taxa de desemprego entre jovens canadenses, em torno de 14% em março, também contribui para o interesse nas Forças Armadas. A promessa de segurança no emprego e salários mais altos, após o primeiro-ministro Mark Carney anunciar o maior aumento salarial para militares em uma geração, é um forte atrativo. O governo de Carney tem focado na modernização e expansão das Forças Armadas Canadenses, com um plano descrito como “ambicioso”.
Em março, o Canadá anunciou ter atingido a meta de 2% do PIB em gastos com defesa, totalizando mais de 63 bilhões de dólares canadenses (mais de R$ 226 bilhões) em um único ano. O país também aderiu ao compromisso da OTAN de gastar até 5% do PIB em defesa até 2035. Esse montante está sendo direcionado para aumento salarial, aquisição de novos equipamentos e modernização de infraestruturas, especialmente no Ártico.
Desafios e Perspectivas para as Forças Armadas Canadenses
Apesar do aumento no recrutamento, analistas observam que as Forças Armadas Canadenses ainda estão significativamente atrás de seus aliados. Richard Shimooka, pesquisador sênior do Instituto Macdonald-Laurier, destaca que o Canadá tem capacidade para mobilizar apenas alguns milhares de soldados e um número limitado de caças, em contraste com o Reino Unido, que pode mobilizar 10.000 soldados. A dependência histórica dos EUA para a defesa é apontada como um dos principais motivos para essa defasagem.
O Canadá ainda figura entre os membros da OTAN com menor contribuição, mesmo após atingir a meta de 2% do PIB, segundo um relatório da aliança. Críticos acusam o país de “parasitismo militar” e de “se aproveitar dos interesses dos Estados Unidos”.
No entanto, a capacidade de recrutar mais militares é um sinal de melhora. O ministro da Defesa do Canadá, David McGuinty, acredita que as metas de recrutamento serão atingidas antes do previsto. A taxa de atrito, número de militares que deixam as forças, também diminuiu ligeiramente, revertendo o quadro preocupante de “espiral da morte” alertado anteriormente.
Resultados Concretos e Expansão Futura
No último ano fiscal, as Forças Armadas Canadenses alistaram mais de 7.000 novos membros, o maior número em trinta anos. As inscrições confirmadas quase dobraram em relação ao ano anterior, passando de 21.700 para 40.116. O número total de candidaturas ultrapassou os 100.000 no último ano, um salto expressivo em comparação com 2019-2020.
O tenente-coronel Travis Haines atribui parte desse aumento à redução da burocracia interna. Uma mudança significativa foi a abertura do alistamento para residentes permanentes, não apenas cidadãos, a partir de 2022, com estrangeiros representando cerca de 20% dos novos recrutas no ano passado. O Canadá planeja agora uma grande expansão, com um efetivo regular de 85.500 membros e uma força de mobilização de até 300.000 reservistas.
Essa escala de mobilização não vista desde 2004 indica que o país está se preparando para futuros cenários de guerra, observando a atual situação na Ucrânia. O Canadá, assim como seus aliados europeus, busca se preparar “para futuras guerras analisando a atual”, segundo Duval-Lantoine.
