Distanciamento Histórico: Planalto e Congresso Atingem Maior Afastamento Ideológico em 35 Anos, Revela Pesquisa

BRASIL

Planalto e Congresso em Distanciamento Recorde: A Maior Distância Ideológica em 35 Anos

O governo Lula (PT) enfrenta um cenário de crescente tensão com o Congresso Nacional. Em um período recente, o Executivo sofreu reveses significativos, como o veto a um indicado ao STF e a derrubada de vetos presidenciais em projetos com forte impacto político. Esses eventos ilustram um afastamento ideológico entre o Planalto e o Legislativo que atingiu seu ápice.

A distância entre a Presidência da República e o Congresso Nacional, apesar da proximidade física em Brasília, atingiu um novo recorde. Essa constatação vem de dados inéditos da Pesquisa Legislativa Brasileira (PLB), que monitora as opiniões de deputados e senadores há 35 anos.

Conduzida por pesquisadores renomados, a PLB revela que o distanciamento ideológico medido em uma escala ponderada alcançou 0,83. Este índice supera o recorde anterior de 0,73, registrado durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). Os resultados, divulgados pelo UOL, detalham aprofundamentos na separação ideológica e as mudanças na relação entre os parlamentares e o governo.

Polarização Crescente e o Esvaziamento do Centro Político

A **polarização crescente no Congresso** é um dos principais fatores que explicam o amplo afastamento ideológico. Comparando o Congresso atual com o do segundo mandato de Dilma Rousseff e o governo Temer, observa-se um aumento de 33% no distanciamento ideológico entre os partidos, segundo os pesquisadores.

Cezar Zucco, um dos coordenadores da pesquisa, explica que o cenário atual difere de períodos anteriores. “Quando o PT chegou ao governo em 2002, a esquerda se deslocou em direção ao centro. Houve um período de moderação, quando a polarização caiu”, afirma Zucco. No entanto, ele aponta que, mais recentemente, a mediana dos congressistas migrou para a direita, com um consequente **esvaziamento do centro político**.

Timothy Power, outro pesquisador da PLB, destaca a perda de espaço de legendas centristas. “O que é mais marcante hoje é o desaparecimento de partidos de centro, matéria-prima do presidencialismo de coalizão”, observa Power. Ele complementa que “o legislador mediano nunca esteve tão à direita”, reforçando a mudança no perfil do Congresso.

Liberdade de Expressão: Uma Bandeira que Mudou de Lado

A percepção sobre a **liberdade de expressão** também se alterou drasticamente no Congresso. Em 2017, em um contexto de derrotas para a esquerda e condenações de Lula, 72% dos congressistas desse campo político consideravam a liberdade de expressão uma prioridade. Essa era uma bandeira histórica da esquerda desde o fim da ditadura.

Em 2025, com o debate sobre fake news, a atuação do STF e TSE, e um governo petista no poder, esse percentual despencou para apenas 5% no campo progressista. Em contrapartida, na direita, o tema ganhou força. Em 2017, 46% dos parlamentares davam prioridade à liberdade de expressão; agora, esse número saltou para 64%, tornando-se uma das principais bandeiras desse espectro político.

Jamil Assis, diretor do Instituto Sivis, explica que “a liberdade de expressão sempre foi o principal direito civil das minorias ou da oposição. Quando mudam grupos no poder, também muda quem valoriza mais o conceito”. A pesquisa do UOL aponta que 15 dos 21 projetos de lei que citam “liberdade de expressão” nesta legislatura foram propostos por deputados do PL, partido de Jair Bolsonaro, e focam na retirada de conteúdo.

Déficit Fiscal e o Dilema do Clientelismo no Congresso

A forma de lidar com o **déficit fiscal** também revela divisões ideológicas claras. Em 2025, 89% dos parlamentares de direita defenderam corte de gastos, enquanto 76% no centro compartilharam essa visão. Na esquerda, apenas 6% apoiaram o corte de gastos, com a maioria (74%) preferindo um equilíbrio entre corte de despesas e aumento de impostos.

Apesar de 66% do Congresso defenderem o corte de gastos, a realidade orçamentária mostra um cenário diferente. Um estudo de 2025 do Movimento Orçamento Bem Gasto identificou 194 propostas que aumentam gastos contra apenas 60 que reduzem despesas nesta legislatura. A razão pode estar na percepção de que o eleitor exige **clientelismo**, ou seja, a troca de favores políticos por votos, frequentemente canalizada através de emendas parlamentares.

O pagamento de emendas disparou de R$ 45 milhões em 2016 para R$ 45 bilhões em 2025, conferindo ao Congresso um poder orçamentário sem precedentes. Zucco aponta que a entrega de emendas e medidas que aumentam gastos geram um efeito eleitoral positivo, enquanto o problema do déficit fica associado ao Executivo, sem “downside” para o parlamentar. A falta de punições ao Legislativo por descontrole de gastos, admitida por 48% dos congressistas, estimula a irresponsabilidade fiscal, segundo outra pesquisa do Movimento Orçamento Bem Gasto.

Nostalgia Militar e Individualismo Parlamentar: Tendências em Ascensão

A discussão sobre a **intervenção militar** e a interpretação do Artigo 142 da Constituição permanecem relevantes. Desde 1990, o apoio à prerrogativa de intervenção das Forças Armadas nunca ficou abaixo de 40%. Na pesquisa PLB, 80% dos congressistas de direita se declaram favoráveis a essa possibilidade, um reflexo da visão de que os militares desempenharam um papel histórico positivo.

O **individualismo parlamentar**, medido pela PLB, atingiu o maior nível desde o início da pesquisa em 2025. Dois em cada três congressistas afirmam que, em caso de conflito entre a orientação do partido e sua convicção pessoal, devem votar de acordo com suas crenças. Esse individualismo é mais acentuado na direita, onde apenas 16% dos conservadores defendem seguir a orientação partidária em caso de divergência, contra 57% na esquerda.

Essa tendência tem implicações práticas, como menor fidelidade partidária em legendas de direita, como PL e União Brasil, em comparação com partidos de esquerda como PT e PSOL. As tendências de polarização, hipocrisia fiscal, nostalgia militar e individualismo convergem para um Congresso que acumulou poder orçamentário sem a correspondente responsabilidade programática, segundo Power. Ele conclui que o Executivo enfrenta dificuldades em reconquistar o poder orçamentário cedido ao Legislativo.

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