Instrutores Fitness de IA Prometem Corpos Irreais: A Verdade Por Trás dos Anúncios Enganosos em Redes Sociais

VARIEDADES

O Perigo Oculto dos Instrutores Fitness Criados por IA: Promessas Vazias em Busca de Cliques

Você já se deparou com vídeos de fitness nas redes sociais que prometem transformações corporais impressionantes em poucas semanas? Imagens de corpos esculturais e resultados de “antes e depois” que parecem bons demais para ser verdade, muitas vezes são. Uma investigação da BBC revelou que aplicativos de fitness estão utilizando instrutores gerados por inteligência artificial (IA) em anúncios enganosos, violando as regras de publicidade do Reino Unido.

Esses personagens virtuais, que frequentemente não são identificados como artificiais, afirmam ter alcançado resultados extraordinários através de seus próprios programas de treino. As promessas incluem parecer “20 anos mais jovem” ou perder “18 quilos em um mês”, alegações que especialistas consideram cientificamente implausíveis em prazos tão curtos.

A prática levanta sérias questões sobre a autenticidade e o impacto desses conteúdos. Com a proliferação de vídeos criados por IA, torna-se cada vez mais difícil distinguir entre orientação legítima e marketing enganoso, especialmente quando os algoritmos rapidamente inundam os feeds dos usuários com materiais semelhantes, explorando a busca por orientação em condicionamento físico. Conforme apurado pela BBC, as empresas por trás de muitos desses anúncios problemáticos não responderam aos contatos.

A Ascensão dos “Influenciadores” Virtuais no Mundo Fitness

O conteúdo gerado por IA tem inundado as redes sociais nos últimos dois anos, com vídeos promovendo exercícios e programas de condicionamento físico online tornando-se cada vez mais comuns. A investigação da BBC identificou anúncios com personagens criados por inteligência artificial que violam as regras de publicidade do Reino Unido. Muitos desses anúncios nem sequer deixam claro que as pessoas apresentadas não são reais, uma tática para vender assinaturas de aplicativos de fitness.

O professor Andy Miah, especialista em IA da Universidade de Salford, descreve essa tendência como “enorme”. Ele explica que, ao contrário dos influenciadores humanos, personagens criados por IA podem produzir conteúdo continuamente, e os usuários não têm como evitar essa exposição. “Você não pode desativar [o conteúdo de IA]”, afirma Miah, alertando que o cenário atual é um “velho oeste” em termos de regulamentação e que algumas promessas podem ser prejudiciais, alimentando falsas expectativas.

Exemplos de Anúncios Enganosos e a Perspectiva de Profissionais

A BBC analisou diversos anúncios problemáticos que exibiam personagens gerados por IA com mensagens semelhantes. Entre os exemplos, destacam-se:

  • Um podcast simulado com uma falsa instrutora prometendo que mulheres pareceriam “20 anos mais jovens” em um mês.
  • Um suposto sargento do exército afirmando que academia não funciona e prometendo resultados “inacreditáveis” em poucas semanas.
  • Três mulheres em uma praia exibindo transformações corporais e fotos de “antes e depois”, cujos corpos não eram reais.
  • Uma personagem de IA afirmando que médicos pedem seus conselhos e que sua rotina levaria à perda de 18 quilos em 28 dias, aplaudida por uma plateia também artificial.

David Fairlamb, um instrutor de fitness com 30 anos de experiência, expressa preocupação com essas promessas irreais. “Esses anúncios falam em transformações em 28 dias. Eu faço esse trabalho há 30 anos e posso garantir: isso simplesmente não acontece. Não há a menor chance”, declara. Ele ressalta que, embora a IA tenha seu lugar, não pode substituir a conexão humana e o senso de responsabilidade do treinamento presencial.

Impacto na Saúde Mental e Riscos de Lesões

Georgia Sybenga, filha de Fairlamb e também profissional da área, observa que até mesmo jovens familiarizados com redes sociais têm dificuldade em distinguir o real do artificial. “Às vezes, eu mesma me questiono”, confessa. Ambos temem que a exposição constante a corpos artificiais e idealizados prejudique a autoestima, especialmente entre os jovens, que podem acreditar que “poderiam ficar assim em 30 dias”, sem perceber que o corpo apresentado pode nem ser real. Isso é particularmente preocupante para a saúde mental.

Sybenga também alerta que programas de condicionamento físico gerados por IA podem não considerar o quadro completo de um indivíduo. “Eles não levam em conta lesões ou condições de saúde, então você pode acabar se machucando”, adverte. A falta de personalização e a ausência de supervisão profissional adequada aumentam o risco de lesões e frustração.

Regulamentação e o Desafio da Identificação de Conteúdo com IA

A Autoridade de Normas Publicitárias (ASA) do Reino Unido afirma que o uso de IA na publicidade não é proibido, mas sim a forma como ela é utilizada. “Não avaliamos os anúncios pelo fato de conterem inteligência artificial. O que analisamos é se são enganosos ou potencialmente prejudiciais”, explicou Adam Davison, diretor de ciência de dados da ASA. O órgão recebeu cerca de 300 reclamações sobre publicidade gerada por IA no último ano, um número que continua crescendo.

Um dos principais desafios é que, às vezes, pode ser difícil até mesmo para a ASA identificar o uso de IA em um anúncio. As ferramentas de IA permitem criar publicidade rapidamente, muitas vezes por pessoas menos familiarizadas com as regras do setor. A ASA está tomando medidas contra anunciantes identificados pela BBC por alegações “improváveis” de serem comprovadas, oferecendo “avisos de aconselhamento” para orientar sobre o cumprimento dos códigos de publicidade.

Plataformas Sociais e a Luta pela Transparência

As plataformas de mídia social, como Meta e TikTok, afirmam que conteúdos gerados por IA devem ser identificados. No entanto, a BBC encontrou diversos casos em que esses avisos estavam escondidos, pouco claros ou ausentes. O TikTok informa ter rotulado mais de 1,3 bilhão de vídeos gerados por IA, enquanto a Meta avalia o conteúdo com base em sinais incluídos por outras empresas em suas ferramentas de produção. Muitos usuários gostariam de poder desativar completamente conteúdos gerados por IA, mas as plataformas se recusaram a comentar sobre a consideração dessa possibilidade.

Enquanto isso, o volume de conteúdo criado por IA continua a crescer rapidamente. A lógica econômica das redes sociais e a “economia da atenção” em que vivemos favorecem a produção contínua de mais conteúdo com IA, tornando a vigilância e a educação sobre o tema cada vez mais cruciais para proteger os consumidores de promessas vazias e potencialmente prejudiciais.

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