América Latina Vê China com Olhar Mais Positivo que os EUA em Virada Histórica
Pela primeira vez, a América Latina considera a influência da China na região mais positiva que a dos Estados Unidos. A pesquisa Latinobarômetro 2026, divulgada nesta sexta-feira (2), aponta uma mudança significativa na percepção regional sobre as potências globais.
A parcela de latino-americanos que avalia positivamente a influência chinesa saltou de 48% em 2020 para impressionantes 65% neste ano. Em contrapartida, a avaliação positiva dos Estados Unidos recuou de 60% para 57% no mesmo período, indicando uma crescente preferência pela atuação de Pequim.
Apesar da inversão na percepção de influência, os Estados Unidos ainda mantêm uma imagem geral ligeiramente melhor na região, com 63% de opiniões favoráveis, contra 59% da China. No entanto, a tendência de aproximação com a potência asiática é clara e reflete mudanças profundas no cenário geopolítico, conforme aponta o estudo. A pesquisa ouviu mais de 19 mil pessoas em 17 países entre 7 de maio e 17 de junho.
China Ganha Espaço com Acesso a Produtos e Menor Presença Americana
Segundo Marta Lagos, diretora do Latinobarômetro, essa mudança na percepção da **influência da China na América Latina** está, em parte, ligada à menor presença dos Estados Unidos na região nas últimas duas décadas. A China, por sua vez, tem ampliado seu acesso ao mercado regional, oferecendo produtos com preços mais acessíveis, o que tem sido um fator determinante para a sua ascensão.
“O vazio que a China preenche é o dos bolsos, mais do que qualquer outra coisa”, afirmou Lagos, destacando o impacto econômico direto da atuação chinesa. Essa estratégia tem permitido que a China se torne uma alternativa cada vez mais atraente para consumidores e governos latino-americanos em busca de soluções econômicas.
Retorno de Trump e “Doutrina Donroe” Impactam Percepção dos EUA
A pesquisa também aponta o potencial retorno de Donald Trump à Casa Branca, em 2025, como um fator a ser considerado no contexto da relação entre Estados Unidos e América Latina. O relatório menciona a adoção de uma política mais intervencionista por Trump, que ele chamou de “Doutrina Donroe”, uma combinação de seu primeiro nome com o sobrenome de James Monroe, presidente dos EUA no século 19.
Essa **”Doutrina Donroe”** remete à Doutrina Monroe original de 1823, que defendia a não intervenção de potências europeias nas Américas. O relatório também cita o “Escudo das Américas”, uma aliança criada por Trump com países de direita para combater o crime organizado, como parte de sua estratégia na região.
Sociedades Mais Exigentes e Imagem Negativa de Trump Contribuem para a Mudança
Lagos sugere que a América Latina está mais fragmentada e com sociedades mais escolarizadas, tornando os povos “mais rigorosos em seus julgamentos”. A imagem negativa de Trump, segundo ela, contribuiu para a piora da avaliação dos Estados Unidos na região, aumentando a percepção de que será difícil para Washington recuperar o mesmo papel de outrora.
Para 55% dos latino-americanos, as “políticas implementadas pelo presidente dos Estados Unidos” terão um impacto negativo no mundo, evidenciando uma preocupação crescente com a direção das políticas americanas. Essa percepção se soma à crescente aproximação com outras potências, como a China e a União Europeia, em busca de um equilíbrio nas relações internacionais.
Latinobarômetro: Um Raio-X da Opinião Pública Regional
O Latinobarômetro é uma organização sem fins lucrativos com sede no Chile, dedicada a realizar pesquisas de opinião sobre temas cruciais como democracia, economia, segurança e migração na América Latina. Sua pesquisa anual oferece um panorama valioso sobre as tendências e percepções que moldam o futuro da região.
Os dados coletados na pesquisa de 2026, com uma margem de erro de 1%, fornecem um retrato detalhado das atitudes dos latino-americanos em relação às potências globais, refletindo um cenário de crescente multipolaridade e uma busca por relações mais equilibradas e benéficas para a região.
