Argentina: O paradoxo do emprego que não livra da pobreza, “modo sobrevivência” afeta “trabalhadores pobres”
Em um cenário econômico desafiador, a Argentina enfrenta um paradoxo preocupante: ter um emprego formal deixou de ser um escudo contra a pobreza. A realidade de muitos argentinos, como Antonela, que trabalha longas horas, ilustra a ascensão dos chamados “trabalhadores pobres”, pessoas que, mesmo ocupadas, não conseguem suprir suas necessidades básicas.
A situação reflete a deterioração do mercado de trabalho, com salários que não acompanham a inflação e um aumento expressivo da informalidade. Institutos públicos e consultorias privadas alertam que a precariedade laboral e os ajustes econômicos contribuem para que muitos vivam em “modo sobrevivência”, lutando diariamente para cobrir gastos essenciais.
Essa realidade contrasta com dados oficiais recentes que apontam para uma redução da pobreza. No entanto, analistas questionam a metodologia e alertam para a fragilidade dessa melhora, especialmente quando comparada a indicadores de renda real e ao aumento do custo de vida. Acompanhe os detalhes deste fenômeno que afeta milhões de argentinos.
O Fenômeno dos “Trabalhadores Pobres” na Argentina
Institutos públicos e consultorias privadas na Argentina identificam um fenômeno crescente: os “trabalhadores pobres”. São indivíduos que possuem um emprego formal, mas cujos salários são insuficientes para tirá-los da linha da pobreza. Roxana Maurizio, diretora do Instituto Interdisciplinar de Economia Política da Universidade de Buenos Aires (UBA), explica que “ter emprego não é mais um seguro contra a pobreza na Argentina”.
Maurizio ressalta que o salário mínimo argentino atingiu níveis inferiores aos registrados durante a crise de 2001. Um estudo privado do Instituto de Estudos sobre a Realidade Argentina e Latino-Americana (IERAL) da Fundação Mediterrânea apontou que um a cada cinco trabalhadores argentinos é pobre. Para empregos informais, a situação é ainda mais crítica, com um a cada três trabalhadores vivendo em pobreza, segundo o IPEP da UBA.
Antonela, uma argentina de 37 anos com ensino superior, exemplifica essa realidade. Mesmo com um emprego formal em um instituto de bioquímica e um salário acima do mínimo, ela precisa de um segundo trabalho informal para complementar sua renda e cobrir as despesas. “Não consigo me manter com um único emprego. Não tomo como pessoal, entendo que isso acontece com muitas pessoas”, relata.
Desafios do Emprego Formal e o Impacto da Informalidade
Apesar de o governo argentino celebrar uma redução da pobreza para 28%, dados de institutos como o Indec no fim de março, analistas questionam esses números. Eles apontam para a queda nos salários reais e aposentadorias como indicadores de que a situação econômica para muitos trabalhadores não melhorou significativamente. Daniel Schteingart, da plataforma Argendata-Fundar, sugere que a “forte redução [da pobreza] é explicada tanto por causas genuínas, quanto por fatores metodológicos no momento da avaliação da pobreza monetária, que a tornam exagerada”.
A metodologia de cálculo da pobreza, baseada no valor de uma cesta básica de produtos comparada à renda, pode gerar distorções em períodos de alta inflação. Além disso, a queda na pobreza pode ser comparada a um pico anterior, gerado pela desvalorização inicial do governo de Javier Milei, que elevou a pobreza a quase 53% em seus primeiros seis meses.
A informalidade agrava o cenário. A Pesquisa da Dívida Social Argentina da Universidade Católica Argentina (UCA) indica que quase 20% dos trabalhadores empregados são pobres, percentual que sobe para 26% entre os informais. Dados da Argendata-Fundar mostram que, entre assalariados formais, a pobreza é de 10%, enquanto entre os informais, ultrapassa 33%. “Um trabalhador informal tem três vezes mais probabilidade de ser pobre do que um formal”, afirma Maurizio.
Salários em Queda e o “Modo Sobrevivência”
A capacidade de compra do salário médio mensal na Argentina caiu mais de 20% entre 2010 e 2025, conforme aponta a UCA. Essa desvalorização salarial, aliada a uma inflação ainda alta, força muitos a viverem em “modo sobrevivência”, como descreve Antonela. A economia argentina continua em uma situação delicada, com uma inflação acumulada de 33% nos últimos 12 meses, embora menor que em anos anteriores, ainda representa um desafio significativo.
O aumento do trabalho informal, que atualmente emprega cerca de seis milhões de pessoas, enfraquece os salários. Trabalhadores informais não têm acesso a direitos básicos como cobertura de saúde, licenças ou contribuições para aposentadoria, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Esse fenômeno afeta desproporcionalmente jovens e mulheres.
A precariedade laboral, a limitada eficácia das políticas de emprego e os ajustes estruturais propostos pelo governo de Milei explicam por que ter um emprego na Argentina, em muitos casos, não é mais uma garantia contra a pobreza. A mobilidade social ascendente também se debilita, com quatro em cada dez argentinos afirmando estar em pior situação econômica que seus pais, segundo a UCA.
