Chilena dada como desaparecida há 50 anos na era Pinochet é encontrada viva e morando na Argentina: o caso que chocou o país
Bernarda Rosalba Vera Contardo, que esteve na lista de desaparecidos políticos durante a ditadura de Augusto Pinochet no Chile, foi encontrada viva na Argentina, mais de 50 anos após seu paradeiro ter sido perdido. A descoberta, feita pela emissora de TV Chilevisión, levanta novas e complexas questões sobre as violações de direitos humanos ocorridas no país.
Considerada oficialmente como uma das vítimas de desaparecimento forçado, Bernarda Vera, hoje com 80 anos, reconstruiu sua vida longe do Chile. Ela se casou novamente, teve filhos e adquiriu a nacionalidade sueca, vivendo por muitos anos na província de Buenos Aires. O caso, que esteve presente no Relatório Rettig, ganha um novo capítulo com a confirmação de que ela está viva.
A Justiça chilena confirmou a identidade de Bernarda Vera após um minucioso trabalho de investigação, que incluiu um teste de DNA. O resultado, divulgado nesta semana, aponta para uma probabilidade de identificação superior a 99,9999%, segundo informou o Poder Judiciário do Chile à BBC News Mundo. A confirmação encerra décadas de incertezas para sua família e para as organizações de direitos humanos.
A militante política que desapareceu após o golpe
Bernarda Vera tinha 27 anos em outubro de 1973, quando seu rastro se perdeu. Na época, ela era professora e militante ativa do Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR) e do Movimento Camponês Revolucionário (MCR). O Relatório Rettig, publicado em 1991, registrou seu desaparecimento forçado, detalhando que ela teria sido detida por militares em 10 de outubro de 1973, em Liquiñe, e supostamente executada junto com outras 15 pessoas.
O documento oficial de 1991 afirmava que Bernarda Vera foi detida e que seus corpos teriam sido lançados no rio Toltén. Famíliares foram informados de que ela havia sido condenada à morte à revelia. A Comissão da Verdade e Reconciliação, criada em 1990, coletou o testemunho dos pais de Bernarda, que a procuravam incansavelmente desde antes do golpe militar.
Testemunhos e a fuga para a Argentina
Dúvidas sobre o destino de Bernarda Vera surgiram anos atrás, a partir de testemunhos de companheiros de militância. José Manuel Bravo, ex-membro do MIR, relatou em seu livro que um grupo de pessoas, incluindo Bernarda, conseguiu escapar dos militares e fugir para as montanhas em outubro de 1973. Ele afirmou ter permanecido com ela na montanha até dezembro daquele ano, contrariando a data oficial de sua suposta detenção.
Acredita-se que, após essa fuga, Bernarda Vera tenha conseguido sair clandestinamente do Chile para a Argentina, com a ajuda de Svante Grände, um membro sueco do MIR. Na Argentina, ela se casou com um homem local, teve um filho recém-nascido e, posteriormente, mudou-se para a Suécia, onde obteve cidadania e construiu uma nova vida com mais dois filhos, antes de retornar à Argentina no final da década de 1990.
A confirmação judicial e as repercussões
A descoberta de Bernarda Vera pela Chilevisión em Miramar, na Argentina, levou a um processo judicial no Chile. O ministro extraordinário para causas de direitos humanos, Álvaro Mesa Latorre, ordenou o teste de DNA, que confirmou sua identidade. A Justiça chilena agora busca entender se a família tinha conhecimento do paradeiro de Bernarda Vera, pois sua mãe e sua filha recebiam pensões de reparação do Estado chileno como familiares de vítima de violações de direitos humanos.
Membros da direita chilena já pedem investigações para apurar se houve dolo ou má-fé no recebimento desses benefícios e exigem a recuperação dos recursos. O caso, que foi reaberto em 2025 pelo Plano Nacional de Busca, também aponta para a possibilidade de autoridades estatais terem tido conhecimento de incongruências sobre o destino de Bernarda Vera por anos, sem agir com a devida diligência, o que pode gerar responsabilidades administrativas e judiciais.
O desejo de paz e o passado em aberto
Apesar da confirmação de sua sobrevivência, Bernarda Vera optou por não se pronunciar publicamente. Sua jornalista de contato, Florencia Valenzuela, informou que Bernarda sempre imaginou que esse dia chegaria e que ela não renunciaria à vida que construiu. Seu filho Maximiliano reafirmou que a mãe deseja apenas viver em paz e não quer revisitar seu passado. A filha de Bernarda, após anos de busca, demonstrou incredulidade ao ser informada sobre o paradeiro da mãe, afirmando que, se ela estivesse viva, teria entrado em contato.
O caso de Bernarda Rosalba Vera Contardo levanta questões sobre a duração e o impacto da ditadura chilena, a complexidade da busca por desaparecidos e a necessidade de se apurar todas as responsabilidades. Enquanto a Justiça busca respostas, Bernarda Vera segue sua vida na Argentina, longe do passado que a marcou como uma das muitas vítimas de um período sombrio da história chilena.
