Criptonita: Como Criptoativos Viraram Ferramenta Chave de Crimes e Lavagem de Dinheiro no Brasil

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Criptonita: Como Criptoativos Viraram Ferramenta Chave de Crimes e Lavagem de Dinheiro no Brasil

A manhã de 26 de fevereiro de 2025, o banco Itaú detectou uma avalanche atípica de Pix. Em poucas horas, 607 transferências foram realizadas a partir de uma única credencial, ligada a uma fintech parceira. Embora o banco tenha conseguido estornar mais de R$ 100 milhões, o prejuízo final foi de R$ 39 milhões. Este episódio deflagrou a Operação Criptonita e lançou luz sobre a crescente utilização de criptoativos por quadrilhas para lavar dinheiro no Brasil.

Os criptoativos, definidos como uma “representação digital de valor”, operam em um ambiente de alta volatilidade, pouca regulamentação e com um sistema de negociação e transferência quase anônimo. Essa natureza os torna um alvo atraente para atividades ilícitas, funcionando tanto como isca em golpes quanto como “cofre” para ocultar valores roubados.

Tradicionalmente, investigações de lavagem de dinheiro seguiam o rastro do dinheiro físico ou bancário, monitorado por órgãos como o Banco Central e a Receita Federal. Com os criptoativos, esse trajeto se torna mais complexo, pois circulam em um sistema descentralizado, global e com identificação ofuscada, conhecido como blockchain. Conforme informações divulgadas pelo UOL, especialistas, advogados e associações explicam a engrenagem por trás desses esquemas.

Criptoativos: A Porta de Entrada para Golpes e a “Aura de Novidade”

Na Operação Criptonita, o influenciador Gabriel Spalone, com mais de 800 mil seguidores no Instagram, é apontado como peça central. Ele ostentava um estilo de vida luxuoso, supostamente financiado por operações com criptoativos. Um seguidor, Guilherme Coelho, relatou à polícia que Spalone lhe ofereceu dinheiro para abrir contas em nome de empresas de fachada, dizendo que “um chinês paga R$ 1.000 por conta aberta”.

Coelho abriu 11 contas em uma agência do Santander em São Paulo e recebeu R$ 10 mil. Seis dessas empresas, onde Coelho é sócio, foram destinatárias de R$ 70 milhões em transferências Pix no golpe contra o Itaú. A polícia suspeita que Coelho atuava como “laranja” e que Spalone era o real operador das contas.

Especialistas apontam que influenciadores desempenharam um papel crucial na popularização dos criptoativos como oportunidade de investimento. Um levantamento da plataforma JusBrasil e da FGV revelou que, entre janeiro de 2021 e agosto de 2025, mais de 20 mil casos de golpes envolvendo ativos digitais foram registrados. Em 37% desses casos, o criptoativo serviu como chamariz, uma “narrativa” para atrair vítimas, mesmo que o golpe em si não envolvesse diretamente a criptomoeda.

Blockchain: O “Cofre” Quase Anônimo e Dificilmente Rastreável

A dificuldade em rastrear transações é uma das características que atraem golpistas. Toda movimentação de criptomoedas é registrada em um “livro” público e permanente chamado blockchain. Contudo, este “livro” é copiado e atualizado simultaneamente em milhares de computadores globalmente, tornando-o extremamente difícil de falsificar. Para adulterar um registro, seria necessário alterar milhares de cópias ao mesmo tempo, o que é praticamente inviável.

Outro ponto crucial é a “pseudoanonimidade” do sistema. Usuários são identificados por códigos alfanuméricos, sem vínculo direto com nome ou CPF. É possível visualizar todas as transações de um código, mas não identificar o responsável. “É como se fosse uma novela acontecendo em tempo real, mas os atores estão de máscara”, compara o procurador Alexandre Senra, coordenador da área de criptoativos do MPF.

Seguir o dinheiro na blockchain só é possível com uma “migalha de informação”, como uma chave. Sem essa pista, transações podem passar por “mixing-services”, plataformas que embaralham criptos com operações aleatórias, dificultando ainda mais o rastreamento e permitindo que os ativos cheguem a destinatários finais, inclusive fora do Brasil. Foi seguindo essas “migalhas” que o escritório da advogada Marina Brecht conseguiu rastrear fundos de um cliente vítima de golpe.

O Crescimento dos Crimes e as Tentativas de Regulamentação

Dados da consultoria Chainalysis indicam que endereços digitais associados a atividades ilegais receberam US$ 154 bilhões em 2025, cerca de 1% das transações globais de cripto. No Brasil, a soma de dinheiro sujo movimentado através de criptoativos é considerada alta, envolvendo desde ingressos falsos de R$ 690 para shows até esquemas que movimentaram R$ 61 bilhões, com suspeitas de envolvimento de organizações criminosas.

Ataques hackers a empresas e bancos também se tornaram mais frequentes. Casos como o desvio de R$ 100 milhões do banco BTG e de R$ 700 milhões da empresa de tecnologia Sinqia alarmaram o mercado e pressionaram o Banco Central a endurecer regras para corretoras de criptomoedas.

Desde o final de 2024, novas resoluções do BC foram publicadas para fechar brechas, mas o setor as considera insuficientes. Ivo Mósca, diretor de inovação da Febraban, afirma que as novas regras não acompanham as versões mais recentes dos golpes, tanto no “atacado” (ataques a bancos) quanto no “varejo” (pirâmides financeiras com cripto).

O Papel dos “Gatekeepers” na Segurança Financeira

Especialistas apontam a necessidade de regular três tipos de intermediários: instituições de pagamento (fintechs), corretoras de criptomoedas (exchanges) e provedores de tecnologia que dão acesso ao sistema financeiro. É fundamental garantir que essas empresas possuam regras rígidas de compliance, o conjunto de normas internas para evitar o uso em crimes financeiros.

Ter compliance adequado significa identificar o cliente (KYC – “know your customer”) para garantir que não sejam golpistas ou organizações criminosas, e alertar as autoridades sobre movimentações suspeitas, comunicando ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). O caso do Banco Master, alvo da Operação Compliance Zero por uma fraude bilionária, exemplifica a importância dessas medidas.

O Banco Central informou que não possui uma base de dados sobre instituições não autorizadas operando. O Marco Legal dos Criptoativos, aprovado em 2022, tem levado a avanços na regulamentação, como a obrigação de fintechs informarem dados de clientes à Receita. A Receita também passou a exigir que exchanges declarem transações de criptoativos, cujos volumes cresceram exponencialmente, de 51,3 mil em 2020 para 323,9 mil em 2025.

As autoridades buscam regular os “gatekeepers”, aqueles que fazem a intermediação no fluxo financeiro que entra na blockchain. Marcus Fonseca, advogado do escritório Demarest, explica que a supervisão se concentra nesses intermediários, já que a blockchain, por ser descentralizada, não pode ser regulada diretamente. Julia Rosin, presidente da ABcripto, argumenta que “quem comete o crime é o ladrão, não é a tecnologia”.

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