Copa do Mundo: Brasileiro Ignora Torneio com Desinteresse Recorde, Aponta Pesquisa Datafolha
A pouco menos de dois meses para o início da Copa do Mundo, sediada por Estados Unidos, Canadá e México, uma parcela expressiva da população brasileira demonstra um desinteresse sem precedentes pelo evento. A seleção nacional, que não inspira grande confiança, contribui para essa apatia geral.
Uma pesquisa recente do Datafolha revelou que 54% dos brasileiros afirmam não ter interesse em assistir aos jogos do Mundial. Este índice representa o **maior percentual da série histórica** iniciada em 1994, superando marcas anteriores e indicando uma mudança significativa no engajamento do país com o maior torneio de futebol do planeta.
O levantamento, que ouviu 2.004 pessoas entre os dias 7 e 9 de abril, com margem de erro de dois pontos percentuais, aponta para um cenário de baixa empolgação. O desinteresse é consideravelmente maior entre o público feminino, atingindo 62%, em contraste com 46% entre os homens. Conforme informação divulgada pelo Datafolha, 31% dos entrevistados declararam que não pretendem assistir às partidas.
Desempenho da Seleção e Fatores Sociais Influenciam Desinteresse
O desempenho recente da seleção brasileira é apontado por torcedores como um dos principais motivos para a baixa empolgação. O time encerrou as Eliminatórias com uma derrota para a Bolívia e em sua pior colocação histórica, o quinto lugar. Tropeços em amistosos contra Japão, Tunísia e França também contribuíram para a falta de confiança.
“Confesso que nunca fui muito do futebol. Mesmo assim, Copa sempre teve um clima diferente, com gente reunida, todos com a mesma camisa, e aquele assunto que acabava conectando todo mundo de forma espontânea”, relata o empresário Denis Seiji Alvarenga, 43 anos. “Mas hoje sinto que isso deu uma esfriada. Não sei se é só pela seleção, que já não passa a mesma confiança de antes, ou se é algo mais geral”, acrescenta.
Alvarenga também aponta mudanças na rotina e no consumo de conteúdo como fatores que afastam o tradicional “clima de Copa”. “Trabalho, compromissos e o jeito que a gente consome conteúdo acaba tirando um pouco daquele ‘parar o país’ que a Copa tinha. Antes era quase automático, agora parece que depende mais do contexto de cada um”, explica.
Ufanismo e Política Afastam Parte do Público
Outro fator citado para o desinteresse é o clima de “oba-oba” e o ufanismo nacionalista que acompanha o torneio. O empresário Valdir Canoso Portasio, 67 anos, expressa seu desagrado com o que considera um “pachequismo” excessivo.
“Meu desinteresse é consciente porque não me agrada fazer parte desse ufanismo nacionalista, desse pachequismo”, afirma Portasio. “Acabo sendo impactado de alguma maneira porque o país se transforma, mas não paro na frente da TV para assistir aos jogos e torcer.” Ele também menciona a realização da Copa nos Estados Unidos como um fator de repulsa, citando a política anti-imigratória do governo americano.
A associação da camisa da seleção com eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro também é um ponto de rejeição para Portasio. “Nem amarrado vestiria a camisa verde-amarelo por causa do que ela passou a representar”, declarou. Curiosamente, o Datafolha aponta que, em termos de preferência política, eleitores de Lula e Bolsonaro apresentam padrões semelhantes de interesse pela Copa.
Jovens Demonstram Mais Interesse, Mas Ainda Longe de Recordes Passados
A pesquisa indica que apenas 17% dos entrevistados têm “grande interesse” em acompanhar a Copa, o menor percentual da série histórica, um ponto abaixo do recorde anterior registrado antes da Copa na Rússia. O pico de interesse foi em 1994, quando 56% demonstravam grande entusiasmo.
O público mais jovem é o mais engajado, com 24% na faixa de 16 a 24 anos e 20% entre 25 e 34 anos expressando grande interesse. No entanto, esses números caem significativamente nas faixas etárias mais elevadas. Guilherme Roberto Rocha Lima, 20 anos, estudante de educação física, admira a mistura de culturas e o fato de ser o principal evento esportivo mundial, mas não deposita grandes expectativas no desempenho brasileiro, apostando em Argentina, França e Portugal como favoritas.
Apesar do desinteresse geral, alguns brasileiros, como o corretor de seguros André Berardo Fiacadori, 36 anos, planejam viajar aos Estados Unidos mesmo sem ingressos, evidenciando que o espírito de união e celebração ainda encontra espaço para alguns, ainda que de forma mais restrita.
