O despejo de Maricarmen, uma senhora de 87 anos que morava há sete décadas em um apartamento no centro de Madri, trouxe à tona a grave crise de moradia que assola a Espanha. A idosa, com mobilidade reduzida, foi forçada a deixar sua casa após não conseguir arcar com o aumento exorbitante do aluguel imposto pela nova proprietária do imóvel.
O caso de Maricarmen se tornou um símbolo da luta pela moradia digna na Espanha. Ela residia em um apartamento de 92 m² no abastado bairro do Retiro, em Madri. O despejo ocorreu na quarta-feira (23), após anos de litígio judicial que, infelizmente, decidiu a favor da empresa de investimentos que adquiriu o imóvel.
A idosa, que possui 50% de incapacidade e mobilidade reduzida, precisou sair de sua residência em uma cadeira de rodas. Após ser transportada para o hospital para um check-up médico, Maricarmen decidiu ir morar com familiares, um desfecho doloroso para quem dedicou sete décadas de sua vida ao mesmo lar.
Conforme divulgado em reportagens sobre o caso, o despejo de Maricarmen evidencia a dificuldade crescente de acesso à moradia na Espanha, com aluguéis cada vez mais caros e a especulação imobiliária ganhando força. Ativistas se concentraram em frente ao prédio para protestar e demonstrar apoio à idosa, criticando a situação do mercado imobiliário espanhol.
Contratos Antigos Sob Ataque da Especulação
O caso de Maricarmen também jogou luz sobre os chamados contratos de locação antiga, assinados há décadas e regidos por normas específicas que protegiam os inquilinos, especialmente em relação ao preço do aluguel e à possibilidade de transmissão para familiares. Estes contratos, muitos firmados durante a ditadura franquista (1939-1975), mantinham valores historicamente baixos.
Maricarmen pagava um aluguel mensal de 500 euros, um valor consideravelmente inferior ao praticado no mercado atual, especialmente para um apartamento em uma localização privilegiada de Madri. A lei evoluiu, mas as interpretações judiciais, como a do Supremo Tribunal espanhol, acabaram por não permitir a continuidade indefinida de contratos em casos de segunda sucessão, como o de Maricarmen.
Em 2018, o edifício onde Maricarmen residia foi vendido para a empresa Renta Corporación. Dois anos depois, a companhia ofereceu a compra do imóvel por 247 mil euros, uma quantia que a idosa não pôde pagar. A Urbagestión, atual proprietária, comprou o imóvel e passou a cobrar um valor muito superior, elevando o aluguel para 2.650 euros mensais, posteriormente reduzido para 1.650 euros, valor que ainda superava em 300 euros a aposentadoria de Maricarmen, que era de 1.350 euros.
Protestos e Tentativas de Solução Frustradas
Apesar de a advogada de Maricarmen afirmar que a idosa nunca se negou a pagar, mantendo o valor anterior, a empresa sustentou que o contrato antigo estava encerrado e exigia o valor atualizado. A Justiça determinou o despejo, que ocorreu em sua quarta tentativa, na manhã de quarta-feira, 23 de setembro.
A saída de Maricarmen foi acompanhada por dezenas de ativistas e personalidades, como o ator Carlos Bardem e a cantora Ana Belén, que se manifestaram contra a especulação imobiliária. Centenas de pessoas se reuniram, tentando impedir a ação judicial, entoando slogans como “Maricarmen fica”. A polícia interveio, gerando confrontos com alguns manifestantes.
O caso ganhou repercussão internacional, com a Comissão de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU pedindo a suspensão do despejo. Houve ofertas de ajuda, inclusive de uma escritora anônima que se dispôs a cobrir a diferença do aluguel e de uma proposta do organismo público de moradia, CASA 47, para comprar o apartamento, mas ambas foram rejeitadas pela Urbagestión, segundo a advogada de Maricarmen.
A Crise de Moradia na Espanha: Números Alarmantes
O episódio de Maricarmen é um reflexo de um problema estrutural na Espanha. A falta de moradias disponíveis nas grandes cidades, como Madri e Barcelona, impulsiona o aumento dos aluguéis. Em Madri, o valor médio do metro quadrado para aluguel atingiu 23,3 euros em agosto de 2026, um aumento de 5,1% em relação ao ano anterior. Dez anos antes, em 2016, o valor era de 12,8 euros por metro quadrado, indicando um aumento acumulado de mais de 80%.
O Banco da Espanha estima que entre 2021 e 2025, faltaram a construção de 750 mil moradias para atender à demanda. Em 2025, foram formados cerca de 240 mil novos lares, mas apenas 92 mil novas residências foram incorporadas ao mercado. Essa discrepância entre oferta e demanda gera pressão nos preços.
A ministra da Habitação da Espanha, Isabel Rodríguez, classificou o despejo como “um dia muito triste e dramático”, culpando a especulação imobiliária. O governo espanhol tem criticado empresas de investimentos imobiliários, enquanto especialistas apontam a necessidade de construir mais e alertam que a insegurança jurídica desestimula proprietários a alugar seus imóveis.
