Especialistas veem a coalizão liderada pelos EUA como instrumento para ampliar influência na América Latina e conter a presença da China.
A coalizão Escudo das Américas, liderada pelos Estados Unidos e que reúne outros 14 países latino-americanos, é vista por especialistas como uma estratégia para interferir na região e conter a influência econômica da China, usando o combate aos cartéis de drogas como pretexto.
Essa é a avaliação de analistas em relações internacionais consultados pela Agência Brasil, como Danilo Enrico Martuscelli, professor de ciência política da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Segundo ele, a iniciativa representa uma tentativa de anexação colonial ou imperial dos países latino-americanos pelos EUA, em um contexto de disputa comercial e tecnológica com a China.
A coalizão, que divulgou um documento à margem da 81ª Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, pretende levar suas propostas para dentro da Organização dos Estados Americanos (OEA). No documento, os 15 países concordaram em classificar 24 grupos narcotraficantes como terroristas, incluindo o PCC e o Comando Vermelho do Brasil.
Retomada de políticas de influência e questionamentos sobre o combate ao narcotráfico
Danilo Enrico Martuscelli compara a política do segundo mandato de Donald Trump a uma “agressão imperial aberta”. Ele levanta dúvidas sobre a eficácia e a sinceridade do combate ao narcotráfico promovido pelos EUA, citando o caso do ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, que recebeu indulto de Trump após ser condenado por facilitar o tráfico de drogas.
“Uma pessoa que está comprometida a combater o narcotráfico vai dar indulto e liberar um narcotraficante? Eles querem combater o narcotráfico, mas no quintal dos outros. Internamente, o que eles fazem para controlar esse crime organizado?”, questionou Martuscelli.
Ingerência disfarçada e o sinal para a China
Robson Valdez, professor de relações internacionais do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), reforça que o foco principal do Escudo das Américas é legitimar ingerências na América Latina sob o argumento do combate ao narcotráfico.
“E, indiretamente, isso sinaliza para a China que a manutenção das suas relações com os países da região teria de ser revista e sob a perspectiva da política externa norte-americana”, comentou Valdez. Ele avalia que a coalizão visa, principalmente, legitimar a presença de tropas americanas na região com o pretexto de combater o crime organizado.
Cautela brasileira e a estratégia econômica por trás da coalizão
O governo brasileiro, que não foi convocado para participar da iniciativa, encara o Escudo das Américas com cautela. Brasília teme que Washington utilize a coalizão para obter alinhamentos automáticos no campo econômico, o que poderia restringir a presença da China na América Latina.
Ao anunciar a coalizão, o governo Trump declarou que a iniciativa visa, além do combate ao narcotráfico, “manter as ameaças externas afastadas, incluindo as influências estrangeiras malignas provenientes de fora do Hemisfério Ocidental”. O documento conjunto da coalizão mistura o combate às drogas com medidas de “cooperação econômica”, incluindo a proteção de “cadeias de suprimento de minerais críticos por meio de fontes diversificadas e confiáveis”.
O papel da OEA e a disputa por minerais estratégicos
A proposta de levar o Escudo das Américas para a OEA, utilizando o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), visa pressionar países que ainda não aderiram, como Brasil, México, Uruguai e Canadá. “O recurso à OEA tem o propósito de dar alguma legitimidade institucional a essa política de pressão imperial aberta”, afirma Martuscelli.
A inclusão de temas como a proteção de minerais críticos, essenciais para a indústria de tecnologia e transição energética, evidencia a disputa comercial e tecnológica entre EUA e China. A coalizão pode ser usada para impor a venda de equipamentos militares dos EUA, limitando a autonomia dos países na escolha de seus parceiros de armamento, segundo Robson Valdez.
