Bolívia se Torna Refúgio e Campo de Batalha para Facções Criminosas Brasileiras, Gerando Onda de Violência Inédita
A cidade boliviana de Guayaramerín, localizada às margens do rio Mamoré, que faz fronteira com o Brasil, tornou-se um ponto estratégico para facções criminosas brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). O que antes era um local de intenso comércio e trânsito pacífico de pessoas, agora vive sob a sombra da expansão violenta dessas organizações, que buscam rotas para o tráfico de cocaína.
Moradores relatam um aumento alarmante na criminalidade, com episódios de violência extrema que chocam a população local e as autoridades. A região, que se destacava por sua tranquilidade e segurança, agora lida com a presença de criminosos que operam com ousadia, muitas vezes à vista das forças de segurança.
Segundo dados oficiais e relatos de especialistas, a Bolívia tem registrado um crescimento significativo nos índices de homicídios e outros crimes violentos. Essa nova realidade é atribuída à disputa territorial e de rotas de tráfico entre as facções brasileiras, que transformaram a fronteira em um palco de confrontos sangrentos, conforme informado pelo governo boliviano.
Expansão e Brutalidade: O Novo Cenário na Fronteira
Guayaramerín, uma cidade de aproximadamente 40 mil habitantes, vive um paradoxo. Enquanto o comércio com o Brasil prospera, a falta de fiscalização no porto fluvial, por onde dezenas de viajantes circulam diariamente, facilita a entrada de criminosos. Um morador de 75 anos, Donald Somoza, descreve a situação alarmante: “Nunca ninguém revista” os passageiros, segundo ele, o que permite que atividades ilícitas ocorram livremente.
O governo boliviano classifica a cidade e outras localidades fronteiriças como um “refúgio” para o PCC e o CV. Essas facções disputam o controle de corredores que facilitam o escoamento de cocaína em direção ao Oceano Atlântico. A violência explodiu nas últimas semanas, com uma dúzia de homicídios atribuídos às facções, um número incomum para um país que se considerava seguro.
Entre os crimes que aterrorizaram a região, destacam-se a chacina de uma família, a descoberta de corpos decapitados e o assassinato de um agente da Polícia. Somoza relata ter testemunhado um evento de grande repercussão: um estrangeiro foi morto com mais de 80 tiros em plena praça central, em um suposto acerto de contas do narcotráfico. Este tipo de violência é, segundo especialistas, “um fenômeno bastante novo na Bolívia”, que até poucos anos atrás vivia uma “pax mafiosa”.
Crescimento Alarmante de Homicídios e Sensação de Insegurança
A professora Ariana Roca, de 35 anos, que frequentemente cruza o rio Mamoré entre Brasil e Bolívia, percebe a mudança: “Agora os crimes acontecem com maior frequência e às vezes acontecem coisas até debaixo do nariz dos policiais”. Os dados oficiais corroboram essa percepção. Entre janeiro e setembro de 2025, foram registrados 774 homicídios de todos os tipos, um aumento expressivo em comparação aos 325 do mesmo período no ano anterior, segundo o Ministério do Governo boliviano.
Além dos homicídios, a população sente uma forte insegurança devido a assaltos à mão armada, sequestros e outras agressões. Adhemar Zapata, um agente de câmbio, foi vítima de assaltos duas vezes, sendo que em um dos casos o autor era brasileiro, de acordo com as investigações. Essa escalada da criminalidade levou o governo atual a acusar as administrações anteriores de terem permitido a proliferação do crime organizado.
Plano de Segurança e Desafios Futuros na Fronteira
Em resposta à crescente violência, o presidente Rodrigo Paz lançou um plano de segurança em Guayaramerín, com o objetivo de aumentar a presença policial nas fronteiras, intensificar a troca de informações de inteligência com o Brasil e capturar criminosos foragidos de ambos os países. Desde o início da gestão de Paz, em novembro, 17 chefes de quadrilhas criminosas internacionais foram capturados, conforme o Ministério do Governo.
Especialistas, como o pesquisador Joaquín Chacín, apontam que, embora o aumento do contingente policial nas fronteiras possa dissuadir a violência, é crucial atacar a estrutura econômica do crime organizado, investigando a lavagem de dinheiro e os beneficiários. Ele ressalta a necessidade de um “plano sério” que, segundo ele, ainda não é visível.
O governo anunciou também a construção de uma ponte em Guayaramerín, que ligará o Brasil à Bolívia, como parte de um corredor viário que chegará ao Peru. Embora a obra possa dinamizar o comércio, muitos moradores temem que ela também facilite a mobilidade de grupos criminosos. O chefe de polícia local, coronel Johnny Rivas, admite que a violência “vai aumentar” e que isso exigirá um reforço nos efetivos policiais.
