Fazendeiros da Colômbia: Entre a Esperança de Deixar o Narcotráfico e a Realidade Cruel da Falta de Apoio

BRASIL

O dilema de agricultores colombianos que tentam escapar do cultivo de coca, matéria-prima da cocaína, mas se veem presos à falta de apoio estatal e à economia ilícita.

A promessa de uma vida longe do narcotráfico ecoa nas remotas províncias colombianas, mas para muitos agricultores, essa esperança se dissipa diante da dura realidade. A luta para abandonar o cultivo de coca, base da produção de cocaína, esbarra em promessas governamentais não cumpridas e na ausência de infraestrutura básica, forçando um retorno ao que, apesar de ilegal, garante o sustento.

A cultura da coca, ancestral e de rápido retorno financeiro, oferece um atrativo econômico difícil de ignorar. Contudo, a violência e a instabilidade que a acompanham levam muitos a buscar alternativas. Programas como o PNIS surgiram como um farol de esperança, mas a descontinuidade e a falta de compromisso efetivo deixam um rastro de frustração e desamparo.

Enquanto a demanda internacional por cocaína se mantém alta, a Colômbia enfrenta o desafio de oferecer alternativas viáveis a seus agricultores. A nova abordagem do programa RenHacemos busca ir além da substituição da planta, visando transformar a economia local. No entanto, a desconfiança semeada por falhas passadas paira no ar, e a sobrevivência diária muitas vezes fala mais alto que as promessas de um futuro diferente. Conforme relatado por agricultores como Perea, o Estado parece ter abandonado completamente essas comunidades, deixando-os em uma situação de “um dia de cada vez”, onde a fome é uma preocupação constante.

A armadilha da Coca: Lucratividade e Ciclo de Violência

Para muitos agricultores colombianos, como Perea, a decisão de abandonar o cultivo de coca em favor de lavouras legais como mandioca e banana foi um ato de esperança. Ele, que reside em uma área remota de Meta, acessível apenas por rio, viu no programa governamental de substituição de cultivos uma oportunidade de mudar de vida. No entanto, a assistência prometida falhou em chegar, e a falta de estradas e as inundações recorrentes impossibilitaram a venda de seus produtos legais.

“É uma tragédia”, desabafa Perea, que em 2024 retornou ao plantio de coca. Ele questiona a falta de alternativas: “Mas, quando você tem filhos e não tem trabalho, que escolha lhe resta? Se a ajuda nunca chega, você volta a cultivar a planta.” Essa fala reflete a dura realidade enfrentada por milhares de famílias que se sentem presas a um ciclo difícil de quebrar.

Promessas e Frustrações: O Legado do PNIS

A folha de coca, embora com raízes culturais ancestrais em chás e medicamentos para comunidades indígenas, hoje é a principal matéria-prima para a produção de cocaína, com a Colômbia respondendo por cerca de 70% da oferta global. Lucas Marín Llanes, pesquisador especializado na economia da coca, explica que a planta oferece vantagens significativas: colheitas rápidas, três ou quatro por ano, transporte facilitado e preço de venda garantido. Sua pesquisa indica que o cultivo de coca pode impulsionar economias locais, elevando o PIB municipal em até 10% em algumas áreas entre 2014 e 2019.

Em 2017, o Programa Nacional Integral de Substituição de Cultivos Ilícitos (PNIS), parte do acordo de paz com as FARC, prometeu apoio financeiro e técnico a cerca de 100 mil famílias. Cada família deveria receber 36 milhões de pesos colombianos (aproximadamente R$ 57 mil) ao longo de dois anos, além de assistência de agrônomos e orientação sobre manejo do solo. Inicialmente, o programa mostrou resultados, com a substituição de plantações de coca por limoeiros e bananas em algumas regiões.

Contudo, Elena Hernández, que se mudou para Guaviare nos anos 90 atraída pela lucratividade da coca, relata a decepção com o PNIS. “O governo não estava muito comprometido conosco, agricultores. Fomos maltratados”, afirma, citando atrasos nos pagamentos e a falta de apoio técnico. A precária presença estatal e a falta de coordenação entre órgãos governamentais impediram que o apoio chegasse às comunidades. Com a mudança de prioridades políticas, o programa perdeu força, e a abordagem governamental se voltou mais para erradicação e segurança.

Um Novo Começo? O Programa RenHacemos e os Desafios Persistentes

Apesar das dificuldades, alguns agricultores, como Doralba Bejarano, de Puerto Rico, no sul de Meta, relatam melhorias com a chegada do apoio governamental. Ela expressa tranquilidade por poder se locomover livremente, sem precisar se esconder, e destaca que sua comunidade tem recebido auxílio para promover e vender culturas legais, além de outros produtos alimentícios.

Os desafios, no entanto, transcendem as fronteiras colombianas. A demanda contínua por cocaína nos EUA e Europa, e o surgimento de novos mercados, mantêm alta a produção. Michael Weintraub, codiretor do Centro de Estudos sobre Segurança e Drogas da Universidade dos Andes, alerta que “neste momento, há uma demanda crescente e, portanto, haverá oferta para atendê-la”, o que significa que a Colômbia continuará cultivando coca. A segurança também é um fator crucial, com grupos armados controlando rotas de tráfico e economias locais, dificultando a atuação de programas de substituição.

O governo atual, com sua política de “Paz Total”, busca negociar com grupos armados, mas os avanços são limitados. Em resposta às falhas do PNIS, o governo lançou o programa RenHacemos, que visa corrigir as deficiências anteriores e diversificar as economias locais. O RenHacemos foca em melhorias de infraestrutura, acesso à educação, conectividade digital e moradia, buscando substituir não apenas a planta de coca, mas toda a economia ilícita ao seu redor, incluindo processamento, agroindústria e logística.

Gloria Miranda, diretora do órgão governamental responsável pela substituição de cultivos ilícitos, afirma que a coca é um negócio, e o RenHacemos visa desmantelar essa economia. Contudo, analistas como Llanes questionam a eficácia de intervenções recorrentes, dado o contínuo crescimento do cultivo de coca. Perea, por sua vez, permanece cético quanto a receber apoio governamental em breve, reiterando que “o Estado nos abandonou completamente”. Para ele e seus vizinhos, a vida é vivida “um dia de cada vez”, e o cultivo de coca, embora ilegal, é a única opção restante para garantir o sustento, não por serem criminosos, mas por falta de alternativas.

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