Funeral de Ali Khamenei: O Fim de uma Era no Irã Após Conflito com EUA e Israel
O Irã se prepara para as cerimônias fúnebres de seu líder supremo, Ali Khamenei, que faleceu em fevereiro em decorrência de ataques atribuídos aos Estados Unidos e Israel. A notícia, divulgada pela mídia estatal iraniana neste sábado (13), detalha um cronograma que se estende por vários dias, culminando com o sepultamento em Mashhad, no nordeste do país, em 9 de julho.
A escolha das datas para o funeral, que se inicia em Teerã no dia 4 de julho, coincide com a celebração da independência dos Estados Unidos, nação atualmente em conflito com o Irã. Essa coincidência temporal adiciona uma camada de significado geopolítico aos eventos que marcarão o fim do longo período de liderança de Khamenei.
O clérigo de 86 anos esteve à frente da República Islâmica por 36 anos, sucedendo seu filho, Mojtaba Khamenei, cuja saúde e paradeiro permanecem envoltos em mistério. As informações sobre os preparativos foram divulgadas pela mídia estatal, conforme reportado neste sábado.
Cerimônias Detalhadas e o Contexto Histórico
As celebrações em homenagem a Ali Khamenei não se limitarão a Teerã. No dia 7 de julho, estão previstas cerimônias na cidade santa de Qom, localizada ao sul da capital. Essa cidade é um importante centro teológico e religioso para o xiismo.
A lei islâmica geralmente exige que os sepultamentos ocorram rapidamente, idealmente em até 24 horas após o falecimento. No entanto, exceções são permitidas, especialmente em períodos de conflito, o que justifica o cronograma estendido para o funeral de Khamenei.
Ali Khamenei teve um papel central na Revolução Islâmica de 1979, ao lado do aiatolá Ruhollah Khomeini, o primeiro líder supremo do Irã pós-revolução. Nascido em 1939 em Mashhad, Khamenei desenvolveu sua formação religiosa e política nas décadas de 1960 e 1970, participando ativamente dos movimentos de oposição ao regime do xá Mohammad Reza Pahlevi.
Da Juventude ao Poder Supremo: A Trajetória de Khamenei
Sua proximidade com o aiatolá Khomeini se fortaleceu durante seus estudos em Qom, onde ele se dedicou à organização do movimento e à execução de missões dentro do Irã. Uma marca significativa em sua trajetória foi o atentado a bomba que sofreu em junho de 1981, que resultou na paralisia permanente de seu braço direito.
Quatro meses após o atentado, Khamenei foi eleito presidente do Irã com expressivos 95% dos votos, um feito notável. Ele permaneceu na presidência até a morte de Khomeini, em 1989, quando a Assembleia de Peritos o escolheu para suceder Khomeini como líder supremo, cargo que ocupou por mais de três décadas.
O Legado de um Líder Autocrático
Especialistas apontam que Ali Khamenei consolidou seu poder através da criação e fortalecimento de estruturas estatais paralelas, como a Guarda Revolucionária do Irã (IRGC), que operavam ao lado das instituições tradicionais. Essa estratégia permitiu um controle mais efetivo sobre o exército e as agências de inteligência.
Ao longo de seu mandato, Khamenei aumentou sua influência na formulação e execução de políticas nacionais, ao mesmo tempo em que fomentou um forte culto à sua personalidade. Sua liderança foi marcada por uma política de linha dura em relação a costumes e pela repressão a opositores, jornalistas e intelectuais dissidentes.
Uma reportagem investigativa da Reuters, publicada em 2018, estimou que Khamenei controlava um império financeiro avaliado em US$ 95 bilhões, originado, segundo a apuração, do confisco de propriedades de cidadãos iranianos, incluindo minorias. O gabinete de Khamenei, na época, classificou a apuração como incorreta, afirmando que a fortuna não era utilizada para luxos pessoais, mas sim para fins políticos.
Repressão e Protestos Durante o Governo Khamenei
As mais de três décadas sob a liderança de Ali Khamenei foram pontuadas por diversas ondas de protestos populares, que foram consistentemente reprimidos com violência pelas forças de segurança do regime. A política externa do Irã, sob sua condução, frequentemente entrou em rota de colisão com potências ocidentais, especialmente os Estados Unidos e Israel.
O governo de Khamenei também foi acusado de envolvimento na morte de opositores exilados. A repressão a jornalistas e intelectuais que não se alinhavam à ideologia do regime foi uma constante durante seu longo período no poder, moldando o panorama político e social do Irã por décadas.
