Inclusão digital no Brasil avança, mas segue desigual, expondo a falta de estrutura para uso contínuo da internet e o acesso limitado à cidadania.
A disparidade entre a comunidade do Pilar e o polo tecnológico Porto Digital, no Recife, ilustra um desafio nacional: o Brasil tem avançado na conectividade, mas a inclusão digital completa e equitativa ainda é uma meta distante.
A falta de computadores, internet fixa e franquias de dados suficientes limita severamente as oportunidades de estudo, trabalho e o pleno acesso a serviços públicos para muitos brasileiros, mesmo em áreas com alta concentração tecnológica.
Conforme informações divulgadas pelo Jornal de Brasília, a distância física e social entre essas duas realidades no Recife evidencia como a infraestrutura mínima para o uso contínuo da internet é crucial para a cidadania na era digital.
A Comunidade do Pilar e o Contraste com o Porto Digital
A comunidade do Pilar, localizada no Recife Antigo, abriga cerca de 600 domicílios, povoados majoritariamente por famílias negras, chefiadas por mulheres e com renda proveniente do trabalho informal. Esta realidade, mapeada por uma pesquisa comunitária com apoio da Universidade das Nações Unidas em 2023, contrasta fortemente com o Porto Digital.
O Porto Digital, por sua vez, é um vibrante polo de tecnologia que reúne mais de 500 empresas e registrou um faturamento de R$ 7,4 bilhões em 2025. Esse contraste gritante realça a lacuna entre o crescimento do setor de tecnologia e as condições de vida e acesso à informação de parte da população.
Dados Revelam a Desigualdade no Acesso à Internet
Dados da PNAD-TIC 2026, divulgados pelo IBGE, apontam que, embora 90,5% das pessoas tenham utilizado a internet em 2025, a qualidade desse acesso permanece desigual. A pesquisa indica que 10,7% dos domicílios dependem exclusivamente da internet móvel, e alarmantes 59,2% não possuem computadores ou tablets.
Especialistas entrevistados na reportagem alertam que planos de internet com franquia limitada e o bloqueio do serviço após o esgotamento dos dados restringem o uso de ferramentas essenciais como serviços bancários, plataformas de estudo e atendimento público, aprofundando a exclusão digital.
Desafios na Educação e Oportunidades para Jovens
A rotina de moradores do Pilar reflete essas dificuldades. O programa Pilar Universitário, que oferece bolsas de estudo integrais em faculdades do Senac, enfrenta obstáculos. Estudantes relatam a impossibilidade de acompanhar as exigências do ensino superior sem acesso a computadores e internet estável.
Eurídize Lima de Santana, por exemplo, precisou trancar a faculdade de Análise e Desenvolvimento de Sistemas por falta de um computador. Atualmente, ela cursa Gestão Financeira à distância, utilizando apenas seu celular e a franquia de dados móveis. A queixa é recorrente na comunidade: a inclusão digital é parcial e não atende às necessidades de formação dos jovens.
Neutralidade da Rede e o Uso da Internet no Brasil
A questão da inclusão digital vai além do simples acesso. Em 2025, apesar de mais de 90% dos brasileiros terem usado a internet, o foco principal foi em redes sociais e aplicativos de mensagem. Especialistas criticam a oferta de pacotes que limitam o acesso a determinados aplicativos, como os da Meta, por ferirem a neutralidade da rede.
Em janeiro de 2023, a Coalizão de Direitos da Rede iniciou um processo administrativo no Ministério da Justiça questionando o bloqueio de acesso à internet por provedoras e a violação da neutralidade da rede. Até o momento, não houve resposta oficial do ministério sobre o andamento do caso, segundo a reportagem do Jornal de Brasília.
