Jovens redescobrem o iPod como refúgio contra o celular e suas distrações constantes
O ritual de conectar um fone com fio, girar a roda de seleção e escolher um álbum baixado manualmente, que parecia pertencer a 2006, voltou com força total em 2026. Jovens da Geração Z estão trocando seus smartphones por iPods, buscando um refúgio da avalanche de notificações e feeds infinitos.
Essa tendência não se resume apenas à nostalgia. Especialistas apontam para uma busca consciente por mais foco, um desejo de se desconectar da hiperconectividade e uma forma simbólica de rejeitar o uso excessivo de tecnologia. O fenômeno tem impulsionado o mercado de revenda e restauração de iPods no Brasil.
O g1 conversou com jovens que resgataram o aparelho para suas rotinas de treino, estudo e deslocamento. Eles relatam que o celular se tornou um obstáculo devido às constantes interrupções das redes sociais. Conforme informações divulgadas pelo g1, a procura pelo dispositivo tem crescido significativamente em plataformas de venda online.
O Retorno do iPod: Mais que Nostalgia, uma Busca por Paz
Emanuelle Assunção, 27 anos, Lisandra Reis, 29, e Cláudio Wollace, 26, compartilham um objetivo comum: escapar da perda de tempo nas redes sociais. Para eles, o iPod oferece não apenas um toque de nostalgia, mas principalmente um ambiente livre de distrações. Lisandra conta que usava o celular durante corridas, mas parava frequentemente para checar notificações. “É muito mais para ouvir música em paz”, afirma.
O especialista em Apple, Filipe Esposito, acompanha a empresa há 17 anos e observa a força dessa comunidade. “Até hoje existe uma comunidade enorme de pessoas que restauram iPods antigos com bateria nova e mais armazenamento, seja para manter o produto vivo como lembrança ou até mesmo para usá-lo no dia a dia”, explica.
Os dados de mercado corroboram essa tendência. O site Enjoei registrou um aumento de 47% no valor total de iPods vendidos no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025. A OLX também aponta um crescimento nas buscas, com um aumento de 18,9% em abril de 2026 em relação a abril de 2025, e 22% no acumulado de janeiro a abril de 2026.
A Experiência de Ouvir Música Manualmente e a Autonomia Recuperada
Emanuelle comprou um iPod Touch de segunda mão em 2024 por R$ 230. Ela lembra que, na época, ainda conseguia usar o Spotify no aparelho, que permitia baixar aplicativos. Contudo, ao retornar ao uso em 2026, o aplicativo já não funcionava mais. “Por causa disso, voltei a baixar músicas manualmente no computador para depois transferi-las para o iPod”, relata.
Cláudio considera o processo de baixar e transferir músicas um ato “revigorante”. Ele destaca a ausência de algoritmos como um diferencial, permitindo ouvir apenas o que ele escolheu. “Eu gosto porque é um aparelho feito só para música, sem notificações ou outras coisas que tirem minha atenção”, diz, referindo-se ao seu iPod Nano comprado em 2025 por R$ 130.
Para a especialista em cyberpsicologia, Angelica Mari, o retorno de produtos como o iPod reflete uma busca por um tempo em que a tecnologia era menos invasiva. “No caso dos iPods, baixar as músicas e atualizar manualmente as playlists vão na contramão da conveniência a que fomos acostumados, mas também devolvem um certo nível de autonomia”, pontua.
iPod Classic: O Sonho de Consumo que Virou Item de Colecionador
Cláudio expressa um desejo antigo: ter um iPod Classic. “Para mim, ele é o top dos tops, mas está muito caro”, lamenta. Essa valorização de dispositivos antigos é um reflexo da busca por simplicidade, que acabou se tornando um item de luxo no mercado de revenda.
Filipe Esposito relembra a importância do iTunes na consolidação do iPod. “Existiam outros tocadores de MP3, mas nenhum tinha a conveniência de uma loja própria de músicas ou um gerenciador de playlists como o iTunes”, comenta. A compatibilidade com PCs foi um marco para a expansão do aparelho.
Angelica Mari complementa que essa busca por simplicidade, com a materialidade de objetos como o cabo do fone de ouvido, contrasta com a eliminação de conexões físicas proporcionada pelo Bluetooth. “A pessoa sente o cabo, que literalmente conecta o usuário ao dispositivo. Existe uma materialidade que foi eliminada com o Bluetooth”, afirma.
A especialista também observa que essa tendência de resgatar produtos do passado, como fones com fio e câmeras digitais antigas, representa uma “recusa simbólica da hiperconectividade” e uma forma de diferenciação social. A dificuldade e o custo para adquirir esses itens hoje, como um iPod Classic usado que pode ultrapassar R$ 1 mil, evidenciam o valor atribuído a essa simplicidade.
