Guerra de Irmãs: O Trono da Barra Brava do Chacarita Jrs. em Disputa Sangrenta
No cenário fervoroso do futebol argentino, um conflito incomum e violento irrompeu nas entranhas de uma das torcidas organizadas mais tradicionais do país. A barra brava do Chacarita Jrs., clube que disputa a segunda divisão, tornou-se palco de uma disputa acirrada pelo controle, protagonizada por duas irmãs: Angélica e Ana Molina.
Essa rivalidade familiar transcendeu as arquibancadas e se manifestou em confrontos sangrentos, deixando um rastro de violência e medo na comunidade. A guerra pelo poder dentro da organização, que movimenta negócios ilegais e lucrativos, expõe a complexa teia de interesses e a influência das barras bravas no futebol argentino.
A escalada da violência e a singularidade de ter uma mulher como líder de uma barra brava, dividida entre duas irmãs em lados opostos, colocam este caso em destaque, atraindo a atenção de jornalistas especializados e gerando apreensão entre os moradores locais. Conforme apurado pela Folhapress, a situação é descrita como única no futebol mundial.
Angélica Molina: A Líder Oficial em Confronto com a Própria Irmã
Angélica Molina, conhecida como a líder da “Famosa Barra de San Martín”, a organizada oficial do Chacarita Jrs., encontra-se no centro de uma guerra pelo controle da barra. Sua posição foi consolidada após a união estável com Raúl Escalante, o “Muchinga”, antigo chefe da torcida e figura influente na AFA (Associação de Futebol Argentino).
Com o AVC e posterior falecimento de Escalante, Angélica assumiu o comando, dividindo o poder com seu filho Diego Canteros. No entanto, seu estilo centralizador e a divisão desigual de lucros começaram a gerar descontentamento. Essa insatisfação abriu caminho para a ascensão de sua irmã, Ana Molina, que passou a comandar um grupo dissidente, “Los Pibes de Chacarita”, alimentando a rivalidade.
A disputa se intensificou com ameaças mútuas, conforme áudios revelados pelo jornalista Gustavo Grabia. A situação culminou em confrontos violentos, como o tiroteio ocorrido em setembro, que deixou quatro feridos, incluindo a própria Angélica, que foi atingida por quatro tiros. A guerra pelo controle da barra brava se estende também ao domínio do tráfico de drogas na região.
Ana Molina e a Dissidência: A Luta pelo Poder com Apoio de Cartéis
Ana Molina, irmã de Angélica, emergiu como a principal antagonista na disputa pelo controle da barra brava do Chacarita Jrs. Ela lidera o grupo dissidente “Los Pibes de Chacarita”, arregimentando os descontentes com a gestão de Angélica e buscando retomar o poder.
Segundo relatos, Ana Molina conta com o apoio de Juan Cegal, seu cunhado, e tem buscado fortalecer sua posição através de alianças estratégicas. A rivalidade entre as irmãs é tão acirrada que ambas teriam escolhido diferentes cartéis para obter suporte em sua luta pelo domínio do tráfico na área do estádio e bairros vizinhos.
A reportagem da Folhapress tentou contato com ambas as irmãs e seus advogados, mas não obteve sucesso. A falta de comunicação e a natureza clandestina das operações das barras bravas dificultam o acesso a informações detalhadas sobre a extensão e as consequências dessa guerra familiar.
O Submundo das Barras Bravas: Poder, Dinheiro e Violência no Futebol Argentino
O termo “barra brava” na Argentina refere-se aos líderes das torcidas organizadas, grupos frequentemente associados a atos de violência e que exercem controle sobre um lucrativo império de negócios ilegais ao redor dos estádios. Eles gerenciam cambistas, vagas de estacionamento, aluguéis de espaços para venda de mercadorias e até mesmo o tráfico de drogas.
Esses grupos também ostentam suas conexões políticas, utilizando sua capacidade de mobilização para influenciar manifestações a favor ou contra governos. A barra brava do Chacarita Jrs., com sua disputa interna entre irmãs, exemplifica a complexidade e a periculosidade desse submundo, onde o poder e o dinheiro se sobrepõem à lealdade familiar e ao esporte.
A Folhapress conversou com moradores e ex-dirigentes do clube, que, em sua maioria, optaram pelo anonimato por medo de represálias. A violência gerada pela disputa entre Angélica e Ana Molina, que chegou a resultar em tiroteios e feridos, é um reflexo sombrio do poder que essas organizações detêm e do impacto que causam na sociedade argentina.
O Chacarita Jrs. e a Luta pela Permanência na Segunda Divisão
Enquanto a guerra pelo controle da barra brava se desenrola, o time do Chacarita Jrs. enfrenta uma decisão crucial para sua permanência na segunda divisão do futebol argentino. O clube precisa vencer o Nueva Chicago em casa para evitar o rebaixamento, um momento de alta tensão que pode ser agravado pela instabilidade gerada pela violência interna da torcida.
A região de Chacarita, na zona norte de Buenos Aires, conhecida por sua efervescência cultural e eleita um dos bairros mais descolados do mundo pela revista Time Out, contrasta com a violência que emana das disputas pelo poder nas arquibancadas. A sede social do clube, um espaço com piscinas e restaurantes, parece alheia aos conflitos que ocorrem longe dos olhos dos sócios.
A reportagem constatou que, nos arredores do estádio e em locais frequentados por torcedores, o nome das irmãs Molina é pouco divulgado, e muitos se recusam a comentar sobre o assunto, evidenciando o clima de medo e silêncio que cerca a atuação das barras bravas e a guerra particular que abala o Chacarita Jrs.
