Lula 4: A Virada Pragmaticista com “Mais Rua, Menos PT” e o Poder Digital na Nova Gestão

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Lula 4: A Virada Pragmaticista com “Mais Rua, Menos PT” e o Poder Digital na Nova Gestão

A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais foi marcada por uma mudança estratégica significativa, com o slogan “Mais rua, menos PT” dando o tom de um governo mais pragmático. Após um primeiro turno que exigiu correções de rota, a equipe de campanha apostou em descentralização de decisões, maior uso da inteligência digital e articulação com setores antes distantes, culminando na vitória e sinalizando um novo modelo de gestão para o que o próprio Lula chamou de “sua última batalha nas urnas”.

Integrantes da campanha relataram ao UOL que a apuração parcial, onde Lula chegou a ficar atrás, serviu como um choque necessário para ajustar a estratégia. A celebração da vitória, que ocorreu em uma sala de convenções no subsolo do hotel, reuniu lideranças históricas do PT e símbolos da nova geração, em um clima de euforia e alívio.

O discurso de vitória de Lula, embora com a voz rouca, reforçou a ideia de aprendizado com o processo eleitoral. O presidente agradeceu a diversos grupos, mas, notavelmente, evitou menções específicas a pautas identitárias, como povos indígenas, população negra e comunidade LGBT+. Essa omissão, juntamente com a ênfase em um governo mais pragmático e com maior capacidade de articulação com a direita, que dominará o Congresso, foi interpretada por pessoas próximas como um indicativo claro de que sua próxima e última gestão será substancialmente diferente das anteriores.

O Choque do Primeiro Turno e a Reorganização da Campanha

A avaliação de que a derrota parcial no primeiro turno foi crucial para a vitória final é unânime entre os ouvidos pela reportagem. O resultado, com Flávio Bolsonaro tendo uma vantagem de 2.224.965 votos, forçou a campanha de Lula a corrigir erros que poderiam ter comprometido o segundo turno. O advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha em São Paulo, destacou a serenidade de Lula diante do cenário, enquanto outro integrante da campanha mencionou a “fé bizarra” do presidente na virada.

Apesar da serenidade e fé, Lula demonstrava uma profunda insatisfação com a organização da campanha no primeiro turno, descrevendo-a como a “mais desorganizada desde 1989”. Em uma reunião crucial em Brasília, após o primeiro turno, a ex-senadora Kátia Abreu clamou por “menos Janja e mais Alckmin”, uma crítica à primeira-dama e um elogio ao vice-presidente. Lula, então, estabeleceu novas tarefas e descentralizou decisões, abrindo mão da burocracia partidária. Iniciativas de campanha que antes precisavam de aprovação do PT passaram a ser liberadas para execução imediata, como a criação do “Exército de Lula” por André Janones no WhatsApp, que atraiu mais de um milhão de inscritos em seu primeiro dia.

A Força da Popularidade Digital e o “Exército de Lula”

A capacidade de ação rápida e a popularidade digital se tornaram pilares da campanha no segundo turno. Um petista anônimo comentou que, dentro do PT, a estrutura partidária não permite que alguém se autoproclame líder e dê ordens, como Janones fez. Mesmo Lula, se agisse dessa forma, seria questionado. Janones, com sua linguagem militarizada, distribuiu missões a seus seguidores diariamente, acumulando mais de 10 milhões de inscritos em seu canal até a véspera da eleição.

Essa estratégia digital impulsionou a popularidade de Lula no ambiente online, que é majoritariamente dominado pela direita. Uma pesquisa da Quaest, utilizando um algoritmo que analisa 175 variáveis em diversas plataformas digitais, mostrou a evolução de Lula. No início da campanha, Flávio marcava perto de 80 e Lula menos de 70. Em 14 de outubro, Lula já pontuava 82,6, enquanto Flávio registrava 76,4. O sucesso do “Exército” levou Lula a reconsiderar sua aversão a smartphones, aceitando um aparelho de presente do governador do Piauí, Rafael Fonteles.

Movimentos de Rua e a Inteligência Artificial a Favor de Lula

A mobilização estudantil também desempenhou um papel importante. Após o primeiro turno, estudantes da Universidade Federal Fluminense ocuparam o campus e caminharam em Niterói com cartazes em apoio a Lula e contra Flávio. Esse movimento espontâneo inspirou ações semelhantes em todo o país, com a UNE contabilizando mais de 70 assembleias estudantis para organizar atos pró-Lula.

Em outra frente inovadora, um grupo de apoiadores utilizou inteligência artificial para adaptar o vídeo selfie de Lula, gravado em 7 de outubro, para 1.333 municípios. O programa inseria o nome de cada cidade na fala de Lula e adicionava imagens locais, pedindo aos jovens que levassem os idosos para votar. Essa iniciativa personalizada, que ajudou a diminuir a abstenção, só foi possível pela descentralização, pois, segundo um petista, esperar a aprovação da campanha teria impedido sua execução.

Pragmatismo e Novos Lideranças no Governo

A descentralização da campanha trouxe à tona novas lideranças, com destaque para Camilo Santana (PT), senador, e Rafael Fonteles, governador do Piauí. Ambos são cotados para o primeiro escalão do governo, indicando a inclinação de Lula pelo pragmatismo. Camilo Santana é mencionado para a Casa Civil, e Rafael Fonteles para a Fazenda.

O desafio agora é conciliar esse pragmatismo com os anseios da juventude, que foi fundamental para a virada, e acomodar aqueles que foram derrotados na eleição. Além disso, o governo precisará equilibrar o “pacote de bondades” da campanha com a responsabilidade fiscal, garantindo o pagamento de benefícios como o Bolsa Família e programas sociais sem comprometer as contas públicas.

O editor Edinho Silva, coordenador nacional da campanha, defendeu a estratégia de defender o legado como um combinado com Lula, argumentando que a campanha foi eclipsada por debates sobre corrupção no primeiro turno. No segundo turno, com a saída desses temas de cena, o “confronto de projetos” se tornou mais claro, e o sentimento de mudança, capturado pela direita anteriormente, pôde ser efetivado.

A mobilização em massa, como o evento na Avenida Paulista comparado às Diretas Já, e o “Exército do Lula” compartilhavam o antibolsonarismo como fio condutor. Enquanto o antipetismo fortaleceu Flávio no primeiro turno, o temor de que ele pudesse alterar a Constituição e acabar com o Bolsa Família favoreceu Lula no segundo. A campanha também contou, de forma inusitada, com a ajuda de “infiltrados” como Nikolas Ferreira, Daniella Marques e Pablo Marçal, cujas ações, segundo a piada interna, acabaram por beneficiar Lula.

Camilo Santana e Rafael Fonteles, além de serem bons de votos, trouxeram um pragmatismo que, segundo o entorno de Lula, faltou no primeiro turno. Diferentemente do grupo pejorativamente chamado de “esquerda cirandeira”, eles são considerados “pés no chão”. A proposta de redução da maioridade penal para 16 anos em crimes hediondos, de autoria de Camilo Santana no Senado, é um exemplo desse pragmatismo. A eleição de Lula, marcada por uma campanha mais rua, menos PT e com forte componente digital, sinaliza um governo focado em articulação e pragmatismo, com desafios significativos para o futuro.

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